terça-feira, 6 de setembro de 2016

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Teorias da Personalidade


As teorias da personalidade - uma abordagem ampla e ontológica

Max Elias da Silva Araújo
Sumario: 1. Introdução. 2. Definição e conceito de personalidade conforme a psicologia forense. 3. Conceito de personalidade no âmbito jurídico. 4. Muitas pessoas buscam uma explicação do que vem a ser personalidade e como ela surgiu. 5. Sigmund Freud. 5.1. Biografia. 5.2. Teoria da personalidade – a teoria psicanalítica. 6. Carl Gustav Jung. 6.1. Biografia. 6.2. Teoria da personalidade – A psicologia analítica. 7. Alfred Adler. 7.1. Biografia. 7.2. Teoria da personalidade - psicologia individual. 8. Willian James. 8.1. Biografia. 8.2. Teoria da personalidade - psicologia da consciência. 9. Carl Rogers. 9.1. Biografia. 9.2. Teoria da personalidade – A perspectiva centrada no cliente. 10. Frederik Perls. 10.1. Biografia. 10.2. Teoria da personalidade – Gestalt-Terapia. 11. Conclusão. 12. Notas.  13. Referencias bibliográficas.
1. Introdução.
A personalidade e suas possíveis teorias a respeito de seu surgimento tornam-se restringidas e limitadas a determinadas correntes de pensamentos, geralmente são correntes de pensamentos que ora são tradicionalistas ou radicais. O que ocorre é definir o que vem a ser personalidade requer um estudo que exige bastante detalhe, sendo assim, há a busca e interrelação de diferentes estudos e temas desenvolvidos e/ou aprimorados como fizera Freud no desenvolvimento da psicanálise.
A psicopatologia, conhecida popularmente como psiquiatria, é o ramo da medicina que se ocupa do estudo e compreensão do fato psíquico patológico, do homem enfermo psicologicamente. A mesma, adota uma visão referente à perspectiva clinica, condizendo que a conduta delitiva, no caso de enfermos que chegam a cometer algum delito, é pura expressão de um determinado transtorno patológico da personalidade, ao qual aflige um determinado individuo. Porquanto a psicologia busca delinear e explanar o estudo da estrutura, etiologia e desenvolvimento cognitivo do comportamento humano, tal conceito no âmbito da criminologia, a mesma tem por função primordial buscar o motivo de um dado individuo ter cometido uma conduta delituosa.
A psicanálise, a qual foi bastante estudada e compreendida em sua essência fundamental por Freud correspondem ao exame da estrutura psicodinâmica da personalidade, seus conflitos internos e frustrações. O modelo psicanalítico distingue três complexos psicológicos, os quais são o Id, Ego e o Superego, estes integram o aparelho intra-psíquico, cujo equilíbrio garante uma estabilidade nas estruturas e funções psicológicas do individuo em questão.
É fundamental, analisar que existe uma grande ramificação de autores que desenvolveram conceitos distintos sobre a psicanálise e até mesmo de todo o estudo psicanalista. O que importa é compreender taxativamente o conceito de personalidade, visto que esta apresenta traços semelhantes nos escritos dos mais variados autores e estudiosos do ramo da psicanálise. O que varia é o conceito atribuído a origem da mesma, interessando tal estudo a todas as ciências humanas inclusive ao direito.
Não importa em qual setor jurídico, um operador do direito estar inserido, mas compreender a psicologia é fundamental para tal pessoa ter um grande progresso profissional. V.g., um advogado luta pela defesa do seu cliente, ele deve buscar achar e aplicar os melhores argumentos para convencer um determinado juiz a dar ganho de causa a ele, outra função é derrubar os argumentos da outra parte. No entanto para que tal fato ocorra é necessário, além de conhecimento jurídico, um excelente conhecimento das ciências psicológicas, em casos em que um advogado de uma parte que estar sendo acusada nota que o advogado da outra parte apresenta sintomas de uma neurose denominada TOC (Transtorno obsessivo compulsivo), como por exemplo, ser bastante metódico, detalhista entre outros sintomas. Basta apenas o advogado da parte acusada realizar algumas perguntas não muito complexas, mas simples e numerosas a parte acusadora, a fim de deixar confuso e sem argumentos.
A psicologia forense, assim como outros ramos das ciências humanas são imprescindíveis para a formação de um bom profissional do ramo jurídico, principalmente para a compreensão do estudo criminal, visto que a psicologia criminal busca estudar e compreender de fato a dinâmica psicológica criminal. Como dizia Willian James:
“Em nossa vida cognitiva, assim como na vida ativa, somos criativos... O mundo é realmente maleável e espera de nossas mãos seus toques finais. Como o reino do céu, ele sofre voluntariamente a violência humana. O homem engendra a verdade sobre ele” (James,  1907,  pp. 256-257).
Dessa maneira, entende-se que o mundo é como uma folha de papel maleável em sua essência, sujeitando-se as ações humanas e naturais sua interlocução e atividade. O operador de direito deve buscar cada vez mais a sua criatividade e a busca da luz tão sonhada pelo iluminismo, que é a simples e pura verdade, esta é instrumento do homem, a qual busca dar seus toques finais e peculiares a ela. Assim entender as diversas concepções de personalidade no âmbito da psicologia forense é um grande passo a compreensão da ciência jurídica do futuro, a qual prima pela flexibilidade ideológica.
2. Definição e conceito de personalidade conforme a psicologia forense.
A definição de personalidade personalidade é para a grande maioria dos autores que remeteram à base do presente trabalho o conjunto peculiar de aspectos que diferenciam a grande maioria das pessoas naturais, no meio de uma gama de pessoas tanto de culturas iguais quanto de diferentes. Porquanto o conceito de personalidade é o perfil apresentado por um determinado individuo, onde a sua conjuntura civil, ideológica, moral, pessoal, seu modo de agir, seu comportamento no entorno da sociedade são emitidos extrinsecamente. A personalidade de certo individuo é a reflexão de um complexo de fatores desde o fisiológico ao psicológico, ela é a combinação da constituição temporal e fruto da construção do caráter e temperamento individual, estes latentes em cada um de nós.
Vale ressaltar que cada pessoa possui uma espécie diferente de personalidade, pois seria impossível haver pessoas com iguais pensamentos e personalidades. A personalidade é condicionada por duas variáveis: às inatas e aquelas que adquirimos com o nosso desenvolvimento fisiológico e social. As primeiras remetem a compreensão de fatores fisiológicos, químicos, físicos, não vem ao caso no presente artigo, entretanto é importante frisar que a segunda variável compreende o fator caráter é a consistência de princípios e valores adquiridos com o passar cronológica em cada individuo.
3. Conceito de personalidade no âmbito jurídico.
A personalidade é, portanto, o conceito básico da ordem jurídica, o qual é expandido a todas as pessoas, consagrando-a e garantindo-a na legislação civil e nos direitos fundamentais inerentes a pessoa humana, independente de origem, grupo étnico, idade, sexo entre outras distinções. É um direito latente a pessoa humana, sendo intransmissível, inalienável, indisponível e não passível de sofrer redução. Nesta ultima característica deve não ser confundida com a capacidade, esta pode ser limitada reducionalmente. Para Clovis Beviláqua, “é a aptidão, reconhecida pela ordem jurídica a alguém, para exercer direitos e contrair obrigações”¹.
Os direitos da personalidade são dotados de caracteres especiais, à medida que são destinados à proteção eficaz da pessoa humana em todos os seus atributos de forma a proteger e assegurar sua dignidade como valor fundamental. Constituem, segundo Bittar, "direitos inatos (originários), absolutos, extra-patrimoniais, intransmissíveis, imprescritíveis, impenhoráveis, vitalícios, necessários e oponíveis erga omnes."
4. Muitas pessoas buscam uma explicação do que vem a ser personalidade e como ela surgiu.
Desde as civilizações mais remotas a humanidade se preocupava em tentar achar uma explicação para a distinção de comportamentos e personalidades humanas, no entanto sempre se deparava com um grande porquê, ou seja, inúmeras duvidas. tal assunto ainda continua ocasionando duvidas, algumas delas inexplicáveis do ponto de vista psicológico, enquanto outras são compreendidas até no entorno do estudo biológico. Para melhor entender, localizar um significado a personalidade é tão difícil quanto responder a estas três perguntas, a seguir: de onde eu vim, quem eu sou e para onde eu irei? Por tal fato alguns autores, os quais ocorrerão o detalhamento suas contribuições pelo intermédio de teorias explicativas sobre a origem da personalidade. Como o fez Freud, Adler, Jung, Perls entre outros. Por isso há o surgimento de diversas teorias da personalidade, estas são divergentes quanto à forma com que é explicada a dinâmica da personalidade, ou seja, o processo motivacional e outros aspectos etiológicos.
5. Sigmund Freud
5.1. Biografia
Sigmund Freud (1856 – 1939) era judeu, estudou medicina em Viena. Estudou psiquiatria, desenvolveu e aprimorou o estudo psicanalítico. Ele é considerado por muitos como o pai da psicanálise. Freud sofreu bastante criticas, na medida em que seus trabalhos tornavam-se cada vez mais acessíveis a população em geral, ele sabia que seus trabalhos eram predominantemente empíricos, ou seja, consistiam em descrições por meio de processos observatórios e que um dia iriam ser superados por pesquisas aperfeiçoadas em neurologia.
5.2. Teoria da personalidade a teoria psicanalítica.
Freud inicia seu pensamento com a idéia de que nada existe aço acaso, há uma causa para todo tipo de pensamento, idéia similar a da ação e da reação, todo pensamento é fruto de uma ação anterior, nenhum pensamento surge sem houver um processo motivacional. Tanto o consciente quanto o inconsciente podem levar a elaboração e desenvolvimento de um determinado processo mental.
O determinismo psicológico era uma grande marca presente no pensamento de Freud, para ele todos os pensamentos, emoções, ações, idéias tem uma causa, nada vem ao acaso e de modo indeterminado. Os impulsos insatisfeitos e os provenientes do inconsciente causam a maioria dos determinados eventos psicológicos. Daí a personalidade ser uma força resultante de diversos vetores psicossociais sexuais.
A personalidade humana é dividida em três grandes superestruturas, estas compreendem os seguintes complexos psicológicos: Ego, Id e Superego. O Ego é a parte da personalidade que toma as decisões a respeito de que impulsos do Id deverão ser satisfeitos e de que modo. O Id é a parte inicial da personalidade, é a partir dela em que o Ego e o Superego se desenvolvem, ele é responsável pela concretização dos impulsos biológicos mais básicos inerentes a pessoa humana. Porquanto o Superego é a parte cognitiva da personalidade que está encarregada de julgar e distinguir o que é certo e o que está errado, de uma maneira geral, ele é a reprodução dos valores e costumes internacionalizados pelo individuo.
Sigmund acreditava que havia durante os primeiros cinco anos de vida, o fato de o individuo ficar sujeito a diferentes estágios de desenvolvimentos fisiológicos, os quais influem na dinâmica do desenvolvimento da personalidade humana. A partir daí ele fundamentou uma ampla definição de sexualidade e a existência de períodos de desenvolvimento pisicossexual. Essas fases são determinadas, pelo fato de os impulsos provenientes do Id, os quais se encontram em processo de busca do prazer sexual, acabam por se concentrarem em determinadas áreas do corpo humano e em continua atividade.
O primeiro ano de vida do homem, Freud o denominou de fase oral do desenvolvimento psicossocial. Nela os bebês obtém prazer no entorno de suas bocas, situação principalmente observável durante a sensação de prazer deles durante os atos de amamentação e sucção, assim eles começam a colocar tudo o que vêem em suas bocas, a fim de obterem prazer. No segundo ano de vida, ocorre uma fase denominada fase anal, nela acreditava-se que o prazer é verificado na região anal, principalmente no instante em que as crianças retém e/ou expelem fezes, no entanto nessa fase ocorre um conflito, em que os agentes são os pais, estes buscam impor aos filhos ou tutelados uma educação sanitária adequada.
Na próxima fase, denominada por Freud como fálica é a em que as crianças começam a acariciar seus genitais, com o objetivo de sentirem prazer. Elas começam a observar as diferenças entre o sexo masculino e o feminino, ao ponto de dirigir seus impulsos sexuais ao genitor de sexo oposto, entretanto quando tal impulso extravasa seus limites, ocorre um problema conceituado por Freud como complexo de Édipo. Nele ocorre um conflito de interesses entre a criança e o genitor se seu mesmo sexo, ou até mesmo ao de sexo oposto. Posteriormente ocorre um período denominado de latência, o qual vai dos 7 aos 12 anos, nele as crianças ficam cada vez mais preocupadas com o meio externo e com os seus corpos. A partir da adolescência, no inicio do período denominado puberdade vem à tona uma fase conhecida como genital, esta é a ultima fase, a da maturação sexual.
Freud acreditava que qualquer problema em alguma dessas fases ocasionaria o surgimento de um posterior problema de personalidade em alguma pessoa, durante sua fase adulta. Por tal motivo, as ocorrências adequadas de fatos ao longo das fases do desenvolvimento sexual ser primordiais para determinar uma boa relação na personalidade de um dado individuam. v.g. uma pessoa que tem o desenvolvimento da fase oral prejudicada por algum fato, no futuro será uma pessoa que tem prazer oral.
6. Carl Gustav Jung.
6.1. Biografia.
Carl Gustav Jung (1875-1961) morou, em sua vida toda, na Suíça. Estudou psiquiatria em zurique. Foi o mais famoso estudioso que rompeu com Freud, inicialmente ele foi um dos seguidores mais dedicados do ultimo, porem com o passar dos tempos, Jung passou a discordar das idéias e algumas teorias Freudianas, assim fundou sua própria escola de psicologia. Esta denominada de psicologia analítica. Ele defendia que a introspecção ativa seria um meio para haver uma mudança psíquica no individuo. Ele estava preocupado era com a parte imersa do grande iceberg, que compreendia a mente humana, ou seja, o inconsciente.
6.2. Teoria da personalidade – A psicologia analítica.
Jung desenvolveu uma metapsicologia bastante aprimorada e elaborada. Ele acreditava que, alem de haver o inconsciente pessoal descrito por Freud, existe inclusive um inconsciente coletivo, ou melhor, dizendo uma parte que compreende uma considerável parte da mente que é comum a todos os seres humanos. Tal inconsciente consiste de imagens fundamentais e peculiares herdadas de nossos antepassados. Jung examinou algumas pessoas que relataram em seus sonhos, coisas comuns a maioria das pessoas como, por exemplo, sonho com imagens de abutres, estas aparecem em escritos religiosos, mitologias mesmo desconhecidos pela pessoa que sonhou.
Como Isaac Newton já afirmara anteriormente, toda ação possui uma reação de igual intensidade, tudo com o objetivo de haver um equilíbrio de forças. De maneira similar, Jung afirmava que para qualquer atitude consciente, há uma compensação inconsciente sempre igual a primeira. Daí, Jung ao buscar a interpretação de sonhos ocorridos no inconsciente, entendeu que estes serviam para compensar alguma coisa ocorrida no consciente, tudo para manter o equilíbrio e a harmonia.
Em sua teoria da personalidade, assim como a de Freud a parte do aparelho psíquico chamado ego é também um complexo, possui a mesma função que o ego freudiano, o qual tem como função proporcionar o fator necessário para ocorrer a adaptação psicológica do individuo com a realidade. Assim o mesmo poder interagir perfeitamente o seu microcosmo intra-psiquico com o mundo externo e poder manter uma harmonia adequada com o id e o superego em seu complexo psíquico.
Algumas coisas em que as pessoas acreditam ser possessões, imagens que aparecem em sonhos, personalidade separada como nos casos de personalidades múltiplas, alucinações; conforme Carl Jung tais fatos consistem em manifestações provenientes da luta entre o Ego e alguns complexos emocionais sobrecarregados. Estes da mesma maneira que algum liquido no interior de uma garrafa agitada estar a pressionando para escapar do referido recipiente, assim estar tais complexos em conflito com a parte racional. Por isso quando eles extravasam o recipiente mental, ocorrem algumas anomalias psíquicas.
A personalidade humana estava dividida em complexos interligados parcialmente, contudo no centro de tudo estava o ego, sendo assim, diversos outros complexos servem como auxilio ao ego. Para Jung a sombra é a imagem inversa da personalidade de um dado individuo, ela é o inverso de toda a manifestação psicológica do mesmo, ou seja, é a oposição corrente aos valores interiorizados no complexo psíquico geral estabelecido pelo ego na concretização das relações externas. O referido autor estabeleceu alguns conceitos como anima e ânimos, o primeiro corresponde à deposição das experiências femininas na herança psíquica de um homem; porquanto a segunda corresponde ao inverso da anterior. Ambos possuem a capacidade de conectar o ego ao mundo introspectivo e, assim ser o mesmo projetado sobre as relações sociais. Quando algum daqueles está conectado a sombra, a mulher, por exemplo, pode ver os atributos interiores de homem como indesejáveis a si e quando encontra esses atributos em si, sente-se culpada e com grande remoço.
Para Jung para que o nosso complexo psíquico se desenvolva é necessário haver o conflito entre o consciente e o inconsciente, tudo com o objetivo de fazer com que nossa personalidade se desenvolver completamente. Ocorrendo, assim um processo denominado individuação. "é o velho jogo do martelo e da bigorna: entre os dois, o homem, como o ferro, é forjado num todo indestrutível, num indivíduo. Isso, em termos toscos, é o que eu entendo por processo de individuação" (Jung). Tal processo consiste na criação de um novo centro psíquico, o qual se chama self, este será o centro da personalidade total, assim como o ego é o centro do consciente.
7. Alfred Adler.
7.1. Biografia.
Alfred Adler (1870-1937), filho de um comerciante judeu de classe media nasceu no suburbio de Viena e passou lá grande parte de sua vida. Ele passou por inúmeras dificuldades medicas em sua vida. Um clínico geral, ele em 1902 tornou-se um dos quatro membros originais do círculo de Freud. Adler divergia com as idéias de Freud em alguns pontos de vista sobre neurose e infantossexuais, motivo que o levou a posteriormente romper seus vínculos com uma sociedade, o qual ele presidia. Sua teoria da personalidade postulou um empenho por auto-estima e tentativa de superar um sentimento de inferioridade.
7.2. Teoria da personalidade - psicologia individual.
Adler em sua teoria sobre a personalidade igualava saúde psicológica à consciência social construtiva, dessa maneira ele desenvolveu um sistema de analise psicológica, o qual denominou de psicologia individual, este ainda continua ainda sendo utilizado em clinicas localizadas em diversos países. Sua principal contribuição para a sociedade mundial foi o estabelecimento de centros de orientação psicológica na área infantil em Viena, os quais serviram como base para a criação de outros centros orientadores em toda parte do mundo.
É fundamental, lembrar que Adler foi enormemente influenciado pelas idéias darwinistas em relação ao processo evolutivo humano. Ele observava as pessoas como seres em plena união, apesar de serem entidades biológicas distintas. Ela acreditava que havia um darwinismo social, o qual enfatizava o fato de haver a sobrevivência das pessoas mais fortes e adequadas ao meio social, dessa forma os indivíduos que não estiverem devidamente adaptados não sobreviveriam no interior da sociedade. Em fim o mundo é dos mais fortes e adaptados, viver na sociedade é um privilegio dos melhores.
“O objetivo da superioridade de cada individuo é pessoal e único. Depende do significado que ele dá a vida. esse significado não é uma questão de palavras. É construído sobre seu estilo de vida e nela se introduz (Adler, 1956,  p. 167).” “sentimentos de inferioridade não são, em si, anormais. São a causa de todo progresso na situação da espécie humana (Adler, 1956,  p. 117).” A psicologia individual baseia-se firmemente no terreno da evolução e sob este prisma encara toda luta humana como uma luta pela perfeição  Adler, 1964ª,  pp. 36-37).”
O homem individualista para Adler era aquele que estar apto ao lema conhece-te a ti mesmo e conheceras o universo e os deuses ², no entanto este não deveria privar-se da coletividade cooperativa, visto que esta é um aspecto muito importante do comportamento social. Somente a partir da cooperação com outros e do perfeito funcionamento cognitivo, podemos superar nossos sentimentos de inferioridade. As três maiores tarefas que um ser humano defronta-se são o trabalho, amizade e o amor. Todas elas são inerentes a condição humana, não importa de qual pessoa análise e observe. O ambiente social molda a sociedade em si.
É imprescindível, frisar que Adler considera o ambiente social possui considerável importância para o desenvolvimento da personalidade de um individuo, dessa maneira ele diverge de Freud, o qual acredita que há um determinismo no desenvolvimento da personalidade humana. Adler busca compreender o comportamento humano por seus objetivos e finalidades, mais do que através de suas causalidades. Ele acaba por interpretar que o meio social influencia muito mais do que o meio interior, no que condiz ao desenvolvimento ou organização do fator psíquico.
Fato é que Adler foi bastante influenciado pela teoria psicanalítica de Freud, especialmente quanto à importância das relações maternas, ao desenvolvimento psicológico nos primeiros anos de vida entre outros setores. Adler menciona em sua teoria da personalidade que há um principio dinâmico, este direciona cada um de nos ao futuro sempre direcionando a uma meta especifica. Uma vê, que a meta passa a tornar-se foco geral nosso aparelho psíquico modifica-se rumo à concretização dele, v.g. quando uma pessoa deseja escrever um livro, a sua mente molda-se e a direciona para essa pessoa realizar tal tarefa. Outro fato é que o mundo real deve agir sobre o mundo das idéias, de modo que as fantasias tornem-se meros objetos acessórios e não principais.
Para Adler o sentimento de inferioridade deve ser superado pelo de domínio, assim um homem que domina suas fraquezas torna-se cada vez mais forte, ele aprende com seus erros, a fraqueza nada é mais do que um resultado da comparação entre uma pessoa e o homem médio. O ser perfeito é aquele que busca a sua superação, não acreditando que estar inferior aos demais, sendo assim ele adota o sentimento motivador como a chave de sua vida, dessa maneira ele sobrevive e prospera num mundo onde há uma seleção natural dos seres existentes. Valem lembrar que muitos obstáculos irão bater de frente contra os homens, no entanto o forte derruba todos eles.
“Em quase todas as pessoas ilustres encontramos alguma imperfeição orgânica, e ficamos com a impressão de que elas foram dolorosamente testadas no inicio da vida, mas lutarm e superaram suas dificuldades (Adler,  1931,  p. 248).”
Outro fator primordial para o desenvolvimento da personalidade observado por Adler é o fato de as crianças que são primogênitas quando deixam de possuir tal característica em virtude de ter nascido outra criança mais nova, tornam-se conservadoras, deixam de lado a pastilha, ficam inseguros.
8. Willian James.
8.1. Biografia.
Willian James nasceu numa família rica da nova Inglaterra em 1842, estudou inicialmente pintura, porem interessou-se por ciência. Ingressou em Havord, posteriormente ficou depressivo, contudo em 1870, Willian James conseguiu se recuperar de tal mal. A partir de sua recuperação, ele assumiu um cargo de professor em Harvard, em seguida em Stanford. Ele foi o terceiro presidente da associação Norte-Americana de psicologia (1894-1895). Ele definia a psicologia como uma explanação sobre estados de consciência como tais; tal definição está estimulando nos dias atuais, muitos estudantes e pesquisadores. James não se limitou, em seus estudos, apenas a um ramo da psicologia, mas sim procurou escrever, estudar e compreender sobre todos.
8.2. Teoria da personalidade - psicologia da consciência.
A personalidade, para James, surge através da interação entre o instinto e hábitos da consciência e os aspectos pessoais volitivos. O pensamento é parte de uma consciência pessoal, porem não existe independentemente da pessoa, o seu processo existe da mesma forma em que pode ser experimentado ou percebido tanto do ambiente interno quanto do externo. O pensamento nunca pode ser igual, o que pensamos uma vez nunca mais pode ser pensado outra vez e o que pensamos ser um pensamento repetido é na realidade uma simples modificação de um outro pensamento anterior, assim afirmava James. Dentro de cada uma das diversas consciências há pensamentos contínuos, a consciência já parte articulada e não desarticulada.
Willian James iniciou um grande estudo a respeito da psicologia da consciência, através de experiências realizadas e inúmeras fundamentações filosóficas por parte do referido, mesmo assim tal tema não passou a ser o centro das atenções nos estudos psicológicos. A compreensão do que vem a ser consciência ainda não pode ser explicado, visto tal definição não ser passível de resposta, mas o que vem a ocorrer é a assimilação de hipóteses provenientes de respostas experimentais. O estudo da consciência envolve a busca pela resposta de alguns fatos, como por exemplo, o que acontece com a consciência, quando a mesma é alterada devido a algum fator provocado como a meditação, hipnose, drogas psicodélicas entre outros fatores.
Entender que a consciência faz gerar algumas distinções, daí acreditamos que a nossa percepção como seres próprios, distintos uns dos outros, tal fato possa ser apenas um simples artifício empregado como uma porta em nossa consciência interna. A maioria do mundo acredita que o transcendental determina nossa consciência, porquanto tal afirmação remete a idéia de no fundo da consciência o homem ser uma peça condicionada e não livre. Por tal motivo James rejeita a idéia de um deus condicionador, a verdadeira verdade, acreditando a evolução pessoal é o fator que importa realmente ao desenvolvimento humano e ao crescimento psicológico liberto de idéias aprisionadoras. Alguns fatos como os sentimentos, o homem devem evitar ou abraça-los de vez.
9. Carl Rogers.
9.1. Biografia.
Carl Rogers (1902 – 1987) nasceu em Oak Park, Illinois, numa família, cuja pratica religiosa era altamente fundamentalista, daí sua infância e educação terem sidas limitadas pela ideologia de seus pais. Viveu sua infância em meio ao isolamento social. Ele tornou-se um pastor e começou a se interessar pelo estudo no ramo da psicologia, iniciando com analises empíricas sociais, desenvolvendo posteriormente suas teorias sobre a personalidade. Rogers buscou um novo plano de ação da psicologia, de modo que esta deveria se desenvolver através da interação entre pacientes no interior de grupos reabilitadores.
9.2. Teoria da personalidade – a perspectiva do cliente.
A teoria de Carl Rogers foi desenvolvida a partir do delineamento de suas experiências clinicas, e a partir da assimilação de diversas fontes e sistemas intelectuais. Ele lançou como uma de suas premissas fundamentais, a de que as pessoas utilizam suas experiências pessoais para se definirem por completo. Rogers busca a definição de diversos conceitos relativos ao estudo psicológico, a partir dos quais buscam a elaboração de teorias da personalidade e modelos terapêuticos, formas de mudanças na personalidade. A sua corrente ideológica ficou conhecida como humanista, visto que ele observa e delineia o homem de uma maneira otimista em suas qualidades pessoais e reis, ao ponto de propor que o homem é um ser mutável para melhor.
Ele acreditava que o homem, da mesma forma que outros sistemas complexos vivos apresentam tendências à adaptação, evolução e atualização em seus fundamentos fisiológicos e psicológicos. Em fim, com o transcorrer cronológico, os homens absorvem cada vez mais experiências, vivenciam novos fatos, aprendem novas coisas, ficam cada vez mais fortes e se adaptam melhor ao ambiente externo e interno, dessa forma adquire cada vez mais capacidade de possuir autoconfiança, liberdade, criatividade e responsabilidade em suas ações.
A experiência é a chave para haver o aprimoramento da consciência interior, no interior do campo da experiência está o self, o qual não se reduz a imutabilidade, estabilidade, porem se for analisado em um determinado instante irá refletir uma noção de estabilidade. Ele sofre modificação à medida, em que as situações se alteram, ele não é apenas uma reprodução instantânea de algo em si, mas um fator que sofre inúmeras modificações de acordo com a situação posta em evidencia. O self é simplesmente a visão que uma determinada pessoa tem de si mesma, de modo que julga e analisa a si, exemplificadamente através de experiências ocorridas no passado e/ou no presente, de modo que as façam buscar a interpretação de si mesmas.
O self ideal é o conjunto de características que o individuo aprecia em sua conjuntura psicossocial, de modo que não embasa a noção de igualdade com a pessoa media, ele simplesmente idealiza a si como algo maior e impenetrável de problemas, ou seja, seu self é seu deus pessoal. A auto-imagem ideal de um individuo o leva em muitos casos ao desenvolvimento de um narcisismo pessoal, ao ponto de fazer com que o individuo auto valorizas-se infinitamente.
“Isto é o que, em nossa opinião, constitui o estado de alienação de si. O individuo faltou com a sinceridade consigo mesmo, para com a significação “organismica” de sua experiência, a fim de conservar a consciência positiva do outro, falsificou certas experiências vividas e representou para si mesmo estas experiências com os mesmos índices de valor que tinham para o outro. Tudo isto se produziu involuntariamente, como um processo natural e trágico alimentado durante a infância” (Rogers,  1959,  p. 202 na ed. Brás.).
Como exemplificado anteriormente um individuo que imita e assimila experiências e valores criados e interiorizados por outro individuo, está realmente alienado, ele foge a sua realidade social buscando um self não existente e não desenvolvido em seu interior, ele apenas utiliza de sua capacidade imitativa para projetar tais realizações virtuais e as tornam reais em seu interior.
10. Frederik Perls.
10.1. Biografia.
Frederik Salomon Perls (1893 – 1970), era de origem judaica, estudou medicina em Berlim. Foi psicanalista, ele sofreu grande influencia de uma corrente de pensamento denominada gestaltista, daí posteriormente ele desenvolver uma terapia com base nos fundamentos de tal corrente ideológica, no entanto suas concepções não são valorizadas de imediato. Somente a partir da década de 60 é que seus trabalhos são aceitos, e assim influenciaram as terapias surgidas posteriormente nos EUA.
10.2. Teoria da personalidade – Gestalt-terapia.
Perls conceituou que ocorre um inatismo no que diz respeito ao desenvolvimento biológico e psicológico de um determinado individuo, melhor explicando, o individuo torna-se o que ele é de acordo com sua predisposição interior a ser o que ele é no momento. Fato semelhante ao determinismo pregado por Lombroso, o qual dizia que um criminoso já nasceu criminoso, e não se tornara um criminoso. Frederik Perls critica fortemente a teoria da psicanálise em relação a esta afirmar que a conjuntura ideológica da agressão e do sadismo está localizada na fase oral, pois ele acreditava que tal conjuntura estava localizada na fase anal do desenvolvimento infantil.
A gestalt-terapia foi descrita por Perls como uma terapia existencial, ou seja, uma simples proposta de caráter clinico baseada em uma filosofia velada em silogismos, a mesma era utilizada mediante a princípios existencialistas. Ele insistia que algum individuo, somente pode ser compreendido através da descrição realizada de maneira direta pela sua própria pessoa, ou seja, um homem só pode ser compreendido se for interpretado por si mesmo. Tal teoria ofereceu uma visão ampla a respeito de diversos campos sociais, de modo que busca uma compreensão cada vez mais adequada das inúmeras relações entre o homem, o planeta, os objetos e a natureza como se tudo fosse parte de um único jogo.
Os seres animados e os inanimados se encontram em relações de interdependências recíprocas, visto que dependem uns dos outros para existirem. Perls definiu a atividade psicológica humana simplesmente como uma determinada atividade realizada por uma pessoa completa, a qual é desenvolvida mediante um desgaste bem menos de energia do que a gasta no empenho da atividade física. Para o referido pensador, pensar é menos cansativo do que correr.
“O organismo age e reage a seu meio com maior ou menos intensidade; a medida que diminui a intensidade, o comportamento físico se transforma em comportamento mental. Quando a intensidade aumenta, o comportamento mental torna-se comportamento físico” (Perls,  1973,  p. 28 na Ed. Brás.).
Nota-se que Perls acreditava que não havia no homem uma separação nítida entre suas sensações, seus pensamentos e as suas ações, tudo era parte de um todo interdependente e integrado formando um único complexo de ações múltiplas. A personalidade é um puro reflexo de todo esse complexo de ações, ela é uma rede resultante da ligação de todas essas ações desempenhadas pelos complexos interligados.
Na gestalt o terapeuta é apenas um facilitador e não um condicionador do comportamento psicológico de seus clientes, assim como Sócrates por meio da dialética busca fazer com que o seu ouvinte conheça a si mesmo, assim é a gestalt. O terapeuta faz com que o seu paciente compreenda a si e se conscientize descobrindo assim seus pontos fortes e os seus pontos fracos, a partir daí o seu bem-estar podem ser garantidos, inclusive o seu crescimento espiritual e psicológico.
11. Conclusão
Portanto cada uma das teorias da personalidade apresentadas no decorrer do presente trabalho apresenta um valor de relevância especificadamente único, visto que cada uma delas buscou abordagens e definições teóricas na maioria das vezes distintas, conflitantes em algum ou vários pontos. Tais teorias são resultados de ramificações ideológicas surgidas no decurso da árvore dos estudos psicológicos e psicanalíticos, em tal ponto que fica evidente seus semelhantes pontos de origem entre duas ou mais teorias, mesmo sendo todas distintas e conflitantes. Entretanto tais conflitos são fundamentais para haver os desenvolvimentos de trabalhos cada vez melhores.
O estudo psicológico é em si fruto de analises, observações empíricas, entretanto em algumas teorias pode ocorrer o fato de tais procedimentos estarem baseados em dogmas dedutivos. O que se percebe é que o homem utiliza de seu altruísmo e de sua auto-valorização e acaba por questionar uma dada teoria, desse modo ele busca a criação de sua própria teoria, em muitas vezes consegue superar as suas expectativas e da comunidade em geral. A ciência possui como um de seus dogmas o fato de que nada que existe é insuperável, sempre irá existir algo que irá alcançar tal fato inicial. Por isso, nenhuma teoria cientifica possui sua duração infinita, o que ocorre é que ela tem de lutar para não ser superada a todo instante, devido a existirem ilimitadas idéias e mentes brilhantes em toda a comunidade cientifica.
O presente trabalho buscou contribuir com o crescimento e com a divulgação da psicologia forense, visto que ela é raramente explorada no âmbito jurídico, devido a estar colocada em uma posição secundaria na lista das ciências do direito, sabe-se que a mesma é a chave para a compreensão humana. O individuo que consegue compreender a psicologia humana acaba por dominar as ações humanas e os frutos provenientes delas, os quais remetem a pratica no mundo juridco.

Referências bibliográficas:
BITTAR, Carlos Alberto. Os Direitos da Personalidade. 2.a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
DARWIN, Charles. A origem do homem e a seleção natural.  trad. Attílio Cancian e Eduardo Nunes Fonseca. São Paulo, Hemus- Livraria Editora, 1974.
DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, v. 1: teoria geral do direito civil. 20.a ed. rev. aum. São Paulo: Saraiva, 2003.
FADIMAN, James; FRANGER, Robert.  Teorias da personalidade. Trad. Camila Pedral Sampaio; Sybil Safdie. São Paulo: HARBRA ltda, 1986.
Hall, C.S & Lindzey G.  Teorias da personalidade. São Paulo: EPU, 1973.
HARDT, Michel. Guilles Deleuze.  Um aprendizado em filosofia. São Paulo: Ed. 34, 1996.
JAMES, Willian, 1890. The principles of psicology. 2 vols. Dover, N.Y.: Henry holt and company. Reedição inalterada 1950; new York.
Klein, M. Contribuições à psicanálise. São Paulo: Mestre Jou,  1981.
PERLS, F.S.; HEFFERLINE, R.F.; GOODMAN, Paul, 1951.  Gestalt Therapy.  New York: Dell.
Notas:
¹ Clóvis Beviláqua, Código Civil dos Estados Unidos do Brasil comentado,  v. 1, obs. 1 ao art. 2° do CC/1916
² celebre frase do filosofo Sócrates.

Informações Sobre o Autor

Max Elias da Silva Araújo Acadêmico de Direito

texto em: http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=8046

Psicoterapia brave x GT

Psicoterapia breve e abordagem gestáltica

por Graça Gouvêa
Podemos remontar os antecedentes da psicoterapia breve aos primórdios da Psicanálise, quando Ferenczi propõe uma mudança no método psicanalítico, utilizando-se da técnica ativa para mobilizar o paciente através de sugestões ou interdições diretas, promovendo, assim, um certo grau de tensão que impeliria a evolução de um tratamento quando este fosse percebido como estagnado. (GILLIERÓN, 1986)[1].
Tal proposta, inicialmente aceita por Freud, é então rejeitada quando, ao publicar "Além do Princípio do Prazer", rearticula sua teoria do funcionamento psíquico, opondo pulsão de vida e pulsão de morte, onde a compulsão à repetição é mantida pela pulsão de morte, implicando no prolongamento dos tratamentos, uma vez que o conflito nascido desta oposição, a qual originaria a compulsão à repetição, não poderia ser removido através de simples sugestões.
A relação transferencial e a compulsão à repetição são os elementos mais importantes para a justificativa do prolongamento dos tratamentos psicanalíticos. A transferência funcionaria como uma atuação da lembrança e por isso impediria o recordar realmente, uma vez que implicaria, simultaneamente, em uma abertura para o inconsciente e uma resistência ao tratamento.
Já aqui podemos fazer uma comparação com a técnica psicoterápica em Gestalt-terapia, uma vez que esta não alimenta a relação transferencial e propõe uma relação terapêutica ativa e direta, onde o contato leva a revivência emocional imediata do conteúdo da recordação trazida à consciência. Fica claro que tal técnica pode viabilizar a redução no tempo do tratamento, uma vez que modifica o enquadre técnico exatamente naquilo que Freud pensa ser o motivo do tempo prolongado da análise.
Os psicanalistas Franz Alexander e Thomas French (1959) propõem a concepção de uma teoria segundo a qual não é a rememoração dos antigos acontecimentos que cura a neurose, mas sim sua revivência numa relação que forneça uma experiência corretiva (no presente). "Essa nova experiência corretiva pode ser fornecida seja pela relação transferencial, seja por novas experiências de vida ou por ambas"... Propõem: "diversos meios visando flexibilizar as rígidas coordenadas da psicanálise e organizar uma nova forma de psicoterapia analítica, muito semelhante às psicoterapias breves atuais. Insiste-se no valor do estabelecimento de um plano de tratamento, baseado em uma avaliação diagnóstico-dinâmica da personalidade do paciente e dos problemas reais que ele precisa resolver nas condições de vida existentes. Ao estabelecer tal plano de terapia, o analista deve decidir, em cada caso, se é indicado um tipo de tratamento primordialmente de apoio ou de descobrimento, ou se a tarefa terapêutica é sobretudo uma questão de modificação das condições exteriores da vida do doente" (GILLIERON, 1986)[1].
Outro psicanalista chamado Sifneos (1977), trabalhando em um hospital geral, onde foi criado um dos primeiros serviços de psicoterapia de crise dos Estados Unidos, teve oportunidade de fazer diversos atendimentos psicoterápicos de curta duração e observou resultados bastante favoráveis. Denominou seu tipo de intervenção como "Psicoterapia de curta duração, provocadora de ansiedade", e distinguiu dois tipos de psicoterapia:
  • ansiolítica ou de apoio, que visa diminuir a ansiedade, para pacientes que estão em crise e que sofram de um problema emocional de longa duração;
  • dinâmica ou provocadora de ansiedade, através da tomada de consciência para a resolução de um problema. Para esta modalidade de terapia, indica apenas os pacientes que tenham forte motivação e certo grau de solidez do ego.
Indica uma técnica que inclui a relação face a face; contato imediato focalizado no problema a ser tratado; atitude ativa de incentivo e focalização do problema. Seus resultados mostram que a eficácia dos mesmos está fortemente associada à motivação dos pacientes no início do tratamento.
Comparando diferentes modelos de psicoterapia breve de fundamentação psicanalítica, optamos por acompanhar as formulações de Hector Fiorini (GILLIERON, 1986[1]; FIORINI, 1993[2]) no que diz respeito a formulação de um eixo para o processo terapêutico, no qual podem ser reconhecidos, nos diferentes métodos, elementos comuns. Seu trabalho está na linha de autores como Alexander, French, Balint, entre outros.
Segundo Fiorini, é possível definir "os eixos do processo em terapia nos seguintes termos: produzir no paciente uma ativação de suas funções egóicas, por meio das quais se torne possível elaborar de modo focalizado a problemática inserida em uma situação vital específica, com base na orientação, no estímulo e nas realizações simbólicas do vínculo vivido numa relação de trabalho personificada com o terapeuta, que inclui a correlata ativação das funções egóicas deste último."
Ainda citando Fiorini, compreendendo o foco como "delimitação de uma totalidade concreta sintética" que contém aspectos:
  • sintomáticos -"os sintomas salientes que motivam a consulta" ou os "pontos de urgência;
  • interacionais - " o conflito interpessoal que desencadeia a crise";
  • caracteriológicos - " uma zona da problemática do paciente que admita sua delimitação em relação a outras zonas da personalidade";
  • grupais ou sociais - o conjunto dos papéis relativos ao grupo sócio-econômico-cultural, às relações de trabalho, às condições ideológicas etc.
"O modelo de foco proposto visa a responder à necessidade de trabalhar com enfoques psicológico-psicopatológicos, diagnósticos e terapêuticos coerentes, integrados em uma concepção totalizadora da experiência humana. Uma concepção a partir da qual as condições de realidade (micro e macrossocial) e os dinamismos próprios do mundo interno pessoal e endogrupal sejam abordados em sua integração interpenetrante e em seus movimentos de estruturação-variação-estruturação constantes. Se o diagnóstico não for encarado com este sentido de movimento em direção ao encontro de uma totalização concreta, o ser humano real desaparece."
Ao nosso ver, parece que podemos estabelecer agora algumas semelhanças quanto a técnica proposta para o trabalho psicoterápico nas psicoterapias breves e na Gestalt-terapia:
  • a relação de trabalho entre terapeuta e cliente é mantida com certo grau de pessoalidade, com um contato empático e maior espontaneidade, onde a posição face a face diminui os aspectos projetivos da transferência e ressalta os aspectos do vínculo terapeuta-cliente no presente;
  • a atitude diretiva do terapeuta, em ambas as técnicas, visa manter uma ação terapêutica focalizada, a partir da queixa trazida originalmente pelo cliente, e facilitar o acesso à consciência dos conteúdos do conflito a partir do óbvio emergente;
  • há uma atitude mais positiva (em relação à concepção freudiana clássica ) dentro das psicoterapias breves, em relação à capacidade adaptativa do Ego e de sua possibilidade de resolução criativa dos conflitos, onde se percebe maior autonomia em relação às estruturas do Id e do Superego. Em GT, esta mesma atitude pode ser vista quando se fala da autorregulação organísmica e da criatividade;
  • é dado um maior destaque às funções egóicas básicas ( funções de contato e de teste da realidade) e à função integradora do ego, para fazer frente às funções defensivas, caracterizando um trabalho menos focalizado na patologia e mais nos recursos de saúde e de autorregulação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1]: GILLIERÓN, E. - AS PSICOTERAPIAS BREVES ,Rio de Janeiro: Zahar, 1986.
[2]: FIORINI, H. J. - TEORIA E TÉCNICA DE PSICOTERAPIAS , Rio de Janeiro: Francisco Alves,10a. ed.,1993.

texto em: http://www.gestaltemfigura.com.br/gestalt-terapia/psicoterapia-breve-abordagem-gestaltica

Psicopatologia x GT

Psicopatologia - Mecanismos de Defesa e Resistências

por Graça Gouvêa
Na Gestalt-terapia o homem é visto como potencialmente saudável. Assim sendo, aquilo que se entende usualmente por mecanismos de defesa neuróticos, o gestalt-terapeuta  compreende como formas de evitação do contato. E isto não significa apenas uma mudança de nomenclatura. A evitação de contato pode ser saudável ou patológica, conforme ¨ sua intensidade, sua maleabilidade, o momento em que intervêm e, de uma maneira mais geral, sua oportunidade.¨ (GINGER, GINGER, 1995).
 A ação do gestalt-terapeuta não deve objetivar atacar, vencer ou superar as resistências quando o cliente está evitando o contato, mas, principalmente, torná-las mais conscientes ou figurais, favorecendo seu uso adaptado à situação do momento.
Um mecanismo de defesa por si só não é bom nem ruim. O uso que o cliente faz dele, o seu funcionamento, é o que caracteriza sua "patologia".
Os mecanismos mais citados pelos diferentes autores da Gestalt-terapia são:
  1. Confluência (Perls) - É um estado de não-contato, por fusão ou ausência de fronteira de contato. O self (si mesmo) não pode ser identificado, ausência de discriminação eu/meio.
  2. Introjeção (Perls) - Significa a incorporação de elementos do meio, de ideias a sentimentos, relações, valores etc. Não confundir com o conceito de introjeção da Psicanálise, pois no conceito de Perls há a implicação de um elemento que não foi assimilado. Outros autores de GT (Ginger) referem que a introjeção só é patológica quando não permite a assimilação.
  3. Projeção (Perls) - Significa atribuir ao meio elementos fantasiados pelo próprio indivíduo. Para Perls, há aqui um deslocamento da responsabilidade do indivíduo para o meio. A projeção não patológica é o que permite, por exemplo, a empatia entre os indivíduos.
  4. Retroflexão (Perls) - Consiste em voltar para si mesmo a energia mobilizada, fazer a si aquilo que gostaria de fazer aos outros ou que os outros lhe fizessem. São exemplos de retroflexão (tanto patológica como saudável): morder os dentes ou cerrar os punhos para não agredir; a masturbação; o sadismo e o masoquismo; a fala mental etc.
  5. Deflexão (Polster) - Permite evitar o contato direto, desviando a energia de seu objeto primitivo.São exemplos: desviar o olhar; "falar sobre"; usar termos técnicos etc.
  6. Proflexão (Sylvia Croker) - Uma combinação de projeção e retroflexão, consiste em fazer ao outro aquilo que gostaríamos que o outro nos fizesse.
  7. Egotismo (Goodman) - Consiste em um reforço deliberado nas fronteiras de contato, devido a um reinvestimento de energia no ego, uma hipertrofia narcísica; geralmente é uma etapa do processo terapêutico, mas enquanto um estado crônico se torna uma patologia.
Em resumo, quanto a etiologia das neuroses do ponto de vista da Gestalt-terapia:
  • para Perls: com o acúmulo de necessidades interrompidas ou Gestalten inacabadas, o organismo se repete na busca de completar o que está inacabado ou interrompido, a fim de fechar a Gestalt;
  • para Paul Goodman:  o self  estaria vivendo uma interrupção na capacidade de promover o ajustamento criativo do organismo ao ambiente de forma atualizada. - Existiram três funções no self: função id (necessidades corporais); função eu (escolha ativa, funções de contato); função personalidade (autoimagem). Um sintoma sintetiza a resolução mais criativa que o organismo pode alcançar naquele momento entre estes diferentes níveis de funcionamento.
A Gestalt-terapia compreende que a consciência é um evento focalizado no presente, no aqui-e-agora, isto significa que: para perceber melhor um fenômeno dentro ou fora de mim mesmo, devo estar concentrado em minhas funções de contato. Este fluxo de consciência é conceituado em Gestalt-terapia como "awareness". Quando tal fluxo é interrompido significa que a consciência deixou de focalizar sua percepção sensorial para focalizar também uma fantasia. Tais fantasias são a base dos mecanismos de evitação, que podem ter um funcionamento patológico.
A Psicanálise baseia sua compreensão dos fenômenos psíquicos no estudo psicodinâmico destas fantasias, enquanto a Gestalt-terapia baseia sua compreensão no estudo do processo de focalização da consciência, devendo portanto abarcar a compreensão das fantasias, mas do ponto de vista do processo e não da fantasia isoladamente.
Toda resistência ou defesa é construída através de uma determinada fantasia, mas nem toda fantasia implica em resistência ou defesa.
A patologia implica não somente em evitação do contato, mas a qualidade e a funcionalidade desta evitação. Se através de uma dada percepção sensorial vem a minha consciência fantasias e imagens, o contato que estabeleço com estas pode ser extremamente criativo, e pode servir a  elaboração  e assimilação de algo que foi percebido anteriormente.
No jogo entre fantasia e percepção constrói-se o sentido da experiência vivida, quanto mais a fantasia antecipa este sentido, tanto menos a percepção se dá com o fenômeno no presente e sim com as imagens e construções mentais sobre a experiência, bloqueando assim a possibilidade de mudança.
O pensamento e a possibilidade de antecipar e planejar podem ser muito funcionais quando organizamos a contabilidade ou planejamos uma aula, mas se nos impedem de modificar, surpreender e criar, então estão a serviço de nossas fantasias neuróticas.
O psicoterapeuta deve combinar de forma "suficientemente boa" percepção no presente e antecipação cuidadosa, planejamento e surpresa, para ser um instrumento de mudanças criativas possibilitando ao cliente a percepção de novas "gestalten".

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
[1]: GINGER, S E GINGER, A.- GESTALT- UMA TERAPIA DO CONTATO , São Paulo: Summus, 1995.
texto em: http://www.gestaltemfigura.com.br/gestalt-terapia/psicopatologia-mecanismos-defesa-resistencias

Diagnóstico em GT

O diagnóstico em Gestalt-terapia

por Graça Gouvêa
O diagnóstico em GT objetiva definir fenomenologicamente um processo: como esta pessoa está funcionando no momento e para quê funciona deste modo, a que necessidades atende e a que necessidades deixa de atender.
Um diagnóstico baseado nos rótulos nosológicos oriundos da Psiquiatria clássica, sem uma compreensão psicodinâmica, de nada servem ao propósito do diagnóstico gestáltico, uma vez que impedem a percepção do processo.
No entanto, uma compreensão do jogo evolutivo das fantasias que estão presentes, do ponto de vista psicodinâmico, pode ser instrumento valioso para se fazer um diagnóstico mais preciso. Consequentemente, a Gestalt-terapia não ignora as formulações psicodinâmicas, mas procura, antes de qualquer formulação diagnóstica, favorecer a um contato, no presente, com a pessoa do cliente.
Para a Gestalt-terapia, uma pessoa funciona como um todo. Alguns comportamentos, ideias ou sentimentos podem representar aspectos desfuncionais ou desatualizados em relação ao todo, inibindo a autorregulação e a capacidade criativa do organismo.
Onde tais aspectos se manifestam, é função do diagnóstico gestáltico detectar de que forma se organizam e para que servem. A função do terapeuta, por sua vez, é perceber, compartilhando, na medida do possível, com seu cliente, uma vez que tal "diagnóstico" só pode ser compreendido e validado ou não através da relação terapêutica.
Devemos lembrar que, para as terapias de fundamentação existencial-humanistas, não existem verdades maiores ou melhores no terapeuta que possam reconhecer, no sintoma do paciente, um significado estudado a priori. O sentido do vivido é dado por quem o vive. Tanto o vivido pelo terapeuta quanto o vivido pelo cliente.
Podemos considerar o diagnóstico de diferentes pontos de vista: a partir da relação estabelecida com o paciente (contato); a partir da teoria a qual o terapeuta se refere, e sua implicação em seu próprio ponto de vista (do terapeuta). Poderíamos acrescentar, ainda, o ponto de vista do paciente e da percepção que tem de si mesmo e de seu sintoma (motivação para o tratamento). Todos estes pontos de vista devem ser pensados como um "jogo" de interações interdependentes. Pensar o paciente e o terapeuta como um sistema dentro de um sistema maior (os grupos aos quais cada pertence) é uma das vantagens do diagnóstico gestáltico.
O terapeuta não pode esquecer que o cliente faz um "diagnóstico" partindo da percepção de seu "sintoma", ou seja, de seus comportamentos mais ou menos disfuncionais. Já o "diagnóstico" do terapeuta deve aliar à percepção fenomenológica uma determinada compreensão do homem, no sentido mais genérico. Tal compreensão implica numa metodologia de intervenção terapêutica.
Segundo Goodman, a psicopatologia em GT é "o estudo da interrupção, da inibição ou outros acidentes no processo do ajustamento criador". E Perls especificou: "O estudo da maneira como uma pessoa funciona em seu meio é o estudo do que acontece na fronteira de contato entre o indivíduo e seu meio. É nessa fronteira de contato que os eventos psicológicos têm lugar" (GINGER, GINGER, 1995 - p. 127).[1]
"O homem saudável (ideal) identifica sem esforço a necessidade dominante no momento, sabe fazer escolhas para satisfazê-las e está disponível para a emergência de uma nova necessidade: ele está sob o efeito de um fluxo permanente de formações e, depois, de dissoluções de "gestalten" (plural de "gestalt", na língua original alemã), movimento ligado à hierarquia de suas necessidades perante o aparecimento sucessivo de figuras, em primeiro plano, sobre o fundo de sua personalidade" (GINGER, GINGER, 1995 - p. 129).[1]
Este "fluxo permanente de formações ", denominado "Ciclo de Contato-Retração" ou "Ciclo da Gestalt" se subdivide em diferentes etapas (com denominações diferentes segundo diferentes autores da GT), apresentamos o ciclo como é proposto por Zinker (GINGER, GINGER, 1995[1]; ZINKER, 1979[2]): sensação; awareness (tomada de consciência); mobilização da energia; ação; contato; retração.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1]: GINGER, S E GINGER, A.- GESTALT- UMA TERAPIA DO CONTATO , São Paulo: Summus, 1995.
[2]: ZINKER, J. - EL PROCESO CREATIVO EN LA TERAPIA GUESTALTICA , Buenos Aires: Paidos, 1a. ed., 1979.
Texto em: http://www.gestaltemfigura.com.br/gestalt-terapia/o-diagnostico-em-gestalt-terapia

Psicossomática e GT

Psicossomática e Gestalt-terapia - abordando o corpo gestalticamente

por Graça Gouvêa
O trabalho corporal, em Gestalt-terapia, não obedece a um projeto pré-estabelecido pelo terapeuta, o que acontece em muitas das terapias corporais, uma vez que o gestalt-terapeuta procura acompanhar o fluxo de consciência do cliente, focalizando e amplificando as suas sensações para, a partir daí, favorecer a amplificação espontânea de movimentos (podendo ou não levar a catarse - FAGAN, SHEPHERD, 1980[1]; GINGER, GINGER, 1995[2]; STEVENS, 1976[3]; DYCHTWALD, 1984[4]).
A Gestalt-terapia preconiza que a autorregulação do organismo sempre procura alternativas criativas para a satisfação das necessidades (mesmo quando uma doença se instala, o propósito inicial é a autorregulação do organismo); assim sendo, o terapeuta pode estimular, através de técnicas vivenciais, a sensibilização das necessidades atuais, favorecendo a tomada de consciência e possibilitando um reajustamento criativo. Compreendendo que o adoecimento se deve a um ajustamento que não é mais funcional para o organismo, pois tal ajustamento está desatualizado em relação às necessidades deste, atendendo a necessidades fantasiadas.
A doença reflete um comprometimento na capacidade de escolha e a cristalização de uma determinada resposta do organismo (defesas patológicas), atuando em cima de necessidades, na maioria das vezes, não mais atuais (respostas às experiências do passado, projetadas como fantasias no presente). O trabalho corporal visará a ressensibilização do organismo para que possa reestruturar novas respostas criativas que atendam às suas necessidades atualizadas.
A catarse não é vista como um fim em si mesmo, pois só tem valor se a relação terapêutica a comporta e lhe oferece significado (assim como qualquer técnica ou experimento gestáltico). O sintoma corporal é deliberadamente utilizado como "porta de entrada",o que permite um contato direto com o cliente, respeitando a via que ele mesmo "escolheu" (o sintoma geralmente recebe a atenção da consciência).
Abordar o corpo gestalticamente, implica no reconhecimento do funcionamento integrado do corpomente (DYCHTWALD, 1984)[4] e numa ação terapêutica integrada através do exercício da "awareness" (STEVENS, 1976)[3].

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1]: FAGAN, J. e SHEPHERD, I.L. - GESTALT-TERAPIA - TEORIA, TÉCNICAS E APLICAÇÕES , Rio de Janeiro: Zahar, 1980.
[2]: GINGER, S e GINGER,A.- GESTALT- UMA TERAPIA DO CONTATO , São Paulo: Summus, 1995.
[3]: STEVENS, J.O. - TORNAR-SE PRESENTE , São Paulo: Summus,1976.
[4]: DYCHTWALD, K. - CORPOMENTE , São Paulo: Summus, 1984.

Texto em: http://www.gestaltemfigura.com.br/gestalt-terapia/psicossomatica-e-gestalt-terapia-abordando-o-corpo-gestalticamente

Gestalt terapia com crianças

Psicoterapia com crianças - Fantasia, Criatividade e Saúde

por Graça Gouvêa
A fantasia é por excelência o modo pelo qual a criança cria e modifica a sua realidade. Para uma criança, fantasiar é criar um espaço onde os encontros impossíveis acontecem.  Brincar é uma atividade inerente ao desenvolvimento humano.
Enquanto adultos podemos buscar resgatar o olhar perdido da criança que há em nós, procurando restabelecer uma forma mais saudável e autorregulada de ser. Fantasiamos para criar, para transformar, permitindo que através das imagens de nossa fantasia, um fluxo de energia renovadora se expresse. Este é um processo através do qual podemos tentar restabelecer o contato e a percepção dos muitos "eus" que nos compõe.
Podemos usar um pouco de Psicanálise para "falar sobre" a fantasia, considerar a sua função de ponte entre a vida consciente e inconsciente, falarmos sobre a necessidade da fantasia para a evolução do pensamento simbólico, ou ainda como uma herança da "mãe-boa" dentro de nós, que nos permite criar e crescer. Mas em síntese o que nos interessa aqui e agora, é que podemos alcançar um funcionamento mais integrado e autorregulador, quando permitimos que nossas fantasias se expressem impulsionando nossa criatividade e ação, e quando focalizamos nossa atenção sobre o fantasiar.
A saúde é uma resultante de sermos capazes de realizar ajustamentos criativos em relação ao meio, no entanto, quando estes ajustamentos se cristalizam assumindo formas crônicas de reação, uma função básica do organismo, a autorregulação, se distorce, deixando de ter um funcionamento saudável. Neste momento, reorientar-se para o viver criativo, é uma possibilidade de obter e manter a saúde.

Na psicoterapia com crianças, a abordagem gestáltica oferece uma possibilidade de reorientar as funções de contato (ver, ouvir, sentir, falar...) de forma a apoiar seu desenvolvimento de uma forma mais organísmica, isto é, orientado por suas reais necessidades de desenvolvimento global. Trabalhando no sentido de ressignificar com a criança e a família atitudes e concepções baseada nas introjeções recebidas familiar e socialmente, onde rótulos tais como: " é uma criança agressiva"; "não gosta de estudar " ; "é muito tímido e não conversa com ninguém" entre outros, criam uma condição que distorce a imagem da criança diante de si mesma e em seu ambiente, cristalizando muitas vezes atitudes que fixam os problemas, em vez de resolvê-los.
Através do uso da fantasia, a criança pode brincar de ser isto ou aquilo, explorando novas possibilidades de ser, escolhendo e se apropriando de novas condutas O brincar pode favorecer, tanto na criança quanto na família, a compreensão e atuação de uma dinâmica familiar adequada em relação às novas possibilidades.

texto em: http://www.gestaltemfigura.com.br/gestalt-terapia/psicoterapia-com-criancas-fantasia-criatividade-e-saude

Gestalt-terapia


Gestalt-terapia

por Hugo Elidio Rodrigues
Para uma melhor compreensão do que é a "Gestalt-terapia", é importante, antes, efetuarmos uma pequena visualização do contexto histórico, no qual esta vertente da Psicologia Clínica encontrou terra fértil para crescer.
Comecemos pelo final do século passado, na Europa. Com o esforço de um conjunto de estudos que queria chamar a si mesma de "ciência", nasce o primeiro laboratório de Psicologia. Este laboratório (fundado pelo Dr. Wilhelm Wundt, em 1879 na Universidade de Leipzig) trazia uma forte influência em sua linha teórica advinda do positivismo científico, que imperava na época e que continuou imperando durante décadas posteriores (WERTHEIMER, 1985).[1]
O trabalho do Dr. Wundt continha uma grande preocupação com a quantificação, análise e previsibilidade das reações humanas. Consequentemente, a base deste trabalho era o "visível", o que era passível de observação e testes que - seguindo a orientação científica - poderiam ser repetidos sob as mesmas condições, achando-se o mesmo resultado. Deste modo, o trato com a questão da psique humana foi reduzido ao "lidar com comportamentos", ao que o ser humano exteriorizava.
Outros teóricos, como John B. Watson (que lançou em 1913 o texto "A Psicologia tal como vê um Behaviorista" - SKINNER, 1985)[2], aprimoraram os pressupostos desta Psicologia com base no comportamento, trazendo-a para a prática clínica e estruturando um sistema próprio, que ficou conhecido como "Behaviorismo".
Porém, já próximo do início do século XX, o trabalho de Freud foi aparecendo no cenário mundial, trazendo uma consistente e profunda teoria sobre a personalidade humana (a Psicanálise), partindo dos comportamentos patológicos (sua teoria estruturou-se inicialmente sobre a histeria - FREUD, 1979)[3]  e apresentando uma preocupação muito maior com os processos mentais. Ou seja, priorizando o "mundo interno".
Através do trabalho do Freud, o homem percebeu o poder de sua vontade, de seu desejo e que todo o positivismo, toda rigidez moral não seria capaz de dominar a natureza humana; já que tal natureza encontrava-se estruturalmente cindida, entre uma parte pequena e passível de controle - que era a consciência - e outra parte insondável, incontrolável e pulsional, que era o inconsciente.
Em resumo, havia então no cenário mundial do início do século XX, algumas abordagens que apresentavam tentativas de compreensão da psique humana, trazendo luz para questões fundamentais das relações intra e interpsíquicas. Porém, havia alguma coisa que faltava...
Na Psicanálise, o ser humano era visto como algo "analisável". Dividido em "partes" que viviam em conflito (consciente x inconsciente, id x superego, Eros x Tanatos), o ser humano dependia da análise destas "partes" para ser compreendido. A análise consistia em um trabalho "arqueológico", escavando o terreno superficial da personalidade do indivíduo e atingindo partes esquecidas cada vez mais remotas, longínquas (inconscientes), porém determinantes no suprimento da energia (libido) que causava a interferência na vida deste indivíduo, impedindo-o de viver satisfatoriamente (FREUD,1979).[4]
Logo, havia uma transferência de responsabilidade implícita nesta abordagem terapêutica, que saía das mãos do paciente e ia para as mãos do psicanalista, já que apenas este detinha o "conhecimento" para a interpretação dos atos e sonhos do indivíduo. Com isto, criou-se uma dependência do paciente ao psicanalista. Segundo Erick Fromm: "... o fato de ter um analista era frequentemente usado para evitar um temido, mas inevitável fato da vida: ter de tomar decisões e aceitar riscos." (FROMM, 1971 – pág. 11).[5]
No Behaviorismo, o trabalho já era mais "superficial" (entendido aqui como baseado na superfície, sobre aquilo que se vê: comportamentos) e apoiado na possibilidade de novas atitudes a serem aprendidas. A patologia consistia em um "mal aprendizado", e a cura era obtida através de um novo processo de reaprendizagem (ou recondicionamento), para suprimir da lista de comportamentos do indivíduo, aquele que era "indesejável". A existência de um mundo interior era ignorada e toda psique humana era explicável através de um jogo de forças entre estímulos e respostas, mais tarde aperfeiçoadas para conceitos como condicionamentos operantes, reforços positivos e negativos, etc.
Ressaltamos aqui que nossa intenção é, tão somente, apontar de uma maneira breve como era o contexto na qual surgiu a Psicologia da Gestalt e, mais tarde, a Gestalt-terapia. Tanto a Psicanálise como o Behaviorismo são escolas de Psicologia que merecem todo um trabalho específico para demonstrar seus pressupostos e conceitos básicos. No escopo deste trabalho, nosso objetivo foi apontar algumas das características destas escolas que originaram controvérsias e que estimularam o aparecimento de outras visões do que é o ser humano.
Em reação a estas visões, principalmente em reação ao trabalho de Wundt (KÖHLER, 1980)[6], surge na Alemanha um campo de pesquisa chamado de "Psicologia da Gestalt ", que primava pela consideração das relações entre as partes e na determinação da percepção do todo em confronto com a ideia do associacionismo (Nota 1).
A palavra alemã "Gestalt" não tem uma tradução literal para o português, mas contém um sentido de "forma" , de "um todo que se orienta para uma definição", de "estrutura organizada". Um exemplo do que a Psicologia da Gestalt tentava dizer poderia ser ilustrado com o fenômeno ilusório do movimento aparente das lâmpadas em série. Ao colocarmos várias lâmpadas, uma ao lado da outra e acendermos uma de cada vez, apagando a anterior, temos a impressão que a luz "corre" pelas lâmpadas. Ou seja, surge das "partes" (cada lâmpada) uma forma nova, que dá um outro sentido ao "todo". O artigo sobre este sentido ilusório do movimento foi publicado pelo psicólogo gestaltista Max Wertheimer em 1912. Neste artigo, Wertheimer já prioriza a ideia de percepção como um conjunto, algo que sobressai a partir da relação entre as partes como um todo, e não pela associação de um estímulo ao outro.
Para uma melhor compreensão, segue um outro exemplo clássico utilizado pelos psicólogos da Gestalt. Quando ouvimos uma sinfonia, percebemos que ela é composta por várias partes, tais como o som de cada instrumento, o ritmo e a tonalidade musical. Estas "partes" nos trazem o estímulo auditivo que nos permite reconhecer a música tocada. Porém, a soma de tais partes - a própria sinfonia - não se resume a estas partes, de modo que, mesmo quando algumas destas partes mudam, ainda temos a chance de reconhecer o "todo", a própria sinfonia. Ou seja, podemos mudar os instrumentos, podemos até acelerar ou diminuir um pouco o ritmo, podemos tocar a sinfonia em outra clave musical (tom acima ou abaixo) e, mesmo assim, a qualidade do todo nos permitirá reconhecer a sinfonia. Como? Porque, segundo as pesquisas da Psicologia da Gestalt, na verdade percebemos é a relação entre as partes que compõem o todo.
A Psicologia da Gestalt foi um campo estritamente experimental, que se ocupou em trazer questionamentos que foram contrários à visão mecanicista (causa-efeito) e à visão atomística (que visa o átomo: a menor parte ou elemento constitutivo das coisas. Na Psicologia: busca determinar se a psique é formada por pulsões, ou emoções, símbolos, condicionamentos etc). Logo, Psicologia da Gestalt e Gestalt-terapia são assuntos diferentes, com campos de atuação e preocupações diferentes.
A Gestalt-terapia se preocupa com o campo clínico, com as técnicas de trabalho e estudos que visam dar ao homem as condições necessárias para seu próprio crescimento. Enquanto que a Psicologia da Gestalt foi um campo de pesquisa que trouxe uma série de novas perspectivas para entender a maneira com a qual o homem se relaciona com o mundo.
Assim, décadas mais tarde, outros psicólogos perceberam a importância do conhecimento que a Psicologia da Gestalt trazia e juntamente com outros pressupostos filosóficos (tais como a fenomenologia , a filosofia existencial-humanista e a filosofia zen-budista), a teoria semântica de Alfred Korzybski, com a Teoria de Campo de K.Lewin, a Teoria Organísmica de Goldstein e pressupostos psicológicos (tais como a influência de Wilhelm Reich e Alexander Lowen e do Psicodrama de J.L.Moreno) erigiram um campo de conhecimento voltado especificamente para a área clínica.
O primeiro autor da Gestalt-terapia foi o então psicanalista Frederic S. Perls, que lançou o livro "Ego, hunger and aggression" em 1942, já contendo uma série de considerações que tinham o objetivo inicial de produzir uma revisão da teoria de Freud (PERLS, 1975)[7], mas que, devido a sua controvérsia com alguns fundamentos da Psicanálise, originou o desligamento de Perls do meio psicanalítico (PERLS, 1979)[8].
Não mais preso ao rígido arcabouço teórico da Psicanálise, Perls investiu na estruturação de um novo campo clínico, escolhendo o nome de "Gestalt" para este novo campo e publicando nos EUA a primeira obra eminentemente gestaltista em 1951 (PERLS, GOODMAN, HEFFERLINE, 1980)[9].
Assim, o que é então a Gestalt-terapia hoje? É uma prática psicoterapêutica que se orienta por uma visão integradora do homem, procurando vê-lo como um todo, não como um "neurótico", um "esquizofrênico" ou como um "isso" ou "aquilo". A patologia é apenas mais uma das várias partes do todo que aquele indivíduo é, e sua "doença" é encarada como a maneira mais "saudável" que encontrou para enfrentar situações insuportáveis ou conscientemente inconciliáveis.
Não significa aí que há uma negação do estado patológico, do sofrimento do paciente pelo estado em que se encontra. Somente é feito um novo enfoque, baseado na constatação que - através de tal estado - a pessoa foi capaz de sobreviver e de chegar até ali, ao ponto em que está. E, assim como houve uma necessidade para esta pessoa organizar-se desta maneira (independentemente da consciência ou inconsciência dela sobre esta organização), a Gestalt-terapia questiona se não haveria outras maneiras, outras formas de ser e viver, que possam atender mais precisamente ao momento na qual a pessoa vive - suas necessidades atuais.
Esclarecendo melhor, parte-se do pressuposto que cada indivíduo apresenta sua específica organização interna; cada indivíduo é único e inigualável, e o seu funcionamento é sua melhor tentativa de se adaptar às pressões do seu meio. Logo, se houve uma estrutura constituída para dar conta de um problema sofrido, esta estrutura teve sua necessidade, surgiu para uma função em alguma época e se hoje é tida como uma "doença" é porque se encontra desatualizada em relação ao contexto presente de vida. Com isto, da mesma maneira que houve uma organização específica para gerar o comportamento patológico, parte-se do pressuposto que estas mesmas forças são capazes de se reorganizarem (ou melhor, atualizarem-se) para se adaptarem de uma nova maneira aos requisitos de hoje.
Com isto o trabalho clínico será voltado para uma ampliação da consciência do indivíduo sobre seu próprio funcionamento, sobre como ele age ou como se bloqueia em sua tentativa para alcançar seu próprio equilíbrio. Assim, o foco terapêutico é deslocado das mãos do terapeuta (do pressuposto detentor do "conhecimento") e vai para a relação terapêutica, onde o gestalt-terapeuta trabalhará para que o indivíduo perceba a responsabilidade sobre suas escolhas e - através do inicial apoio do terapeuta - alcance dentro de seu próprio tempo e possibilidades, uma atitude mais autônoma e autossustentada.
Para isto, o enfoque do trabalho visará sempre o que o indivíduo traz de uma maneira global (o que sente, o que experimenta, o que pensa, sua postura corporal, sua respiração etc) no momento presente, ou, como se diz na Gestalt-terapia, no "aqui-agora". Considerando o indivíduo como um todo, percebe-se que no que ele "é" se insere tudo o que ele foi. Logo, não há necessidade de sair do presente e partir para um passado que distancia cliente e terapeuta do foco das incertezas emocionais vivenciadas no "aqui-agora".
A Gestalt-terapia é uma prática que requer disponibilidade para investir, disponibilidade para "ir junto", para expor-se e envolver-se num processo "humano" e não em um processo "observador-objeto".
Concluindo, não temos a pretensão de esgotar aqui uma definição da Gestalt-terapia, mas cremos ter tocado em alguns dos pontos principais desta abordagem psicoterapêutica. Ressaltamos aqui que o enfoque principal desta abordagem é a própria relação. Devido a estas particularidades, a GT é um importante instrumento que pode ser usado por todo aquele que quer dar prioridade às relações humanas, que "cuida", que "trata" e que "acompanha".
NOTA 1:
( 1 ) Associacionismo: A teoria do Associacionismo teve como um dos seus principais fundadores, o filosófo David Hume (1711/1776). Este autor nos mostra que há certos princípios que regem as conexões entre as ideias, tais como os princípios de semelhança (uma ideia sugere uma outra semelhante), contiguidade (no espaço ou tempo, de modo que ideias surgidas em um momento ou em um local, podem ser lembradas juntas) e causa e efeito (uma ideia que gera uma consequência e sugere outras ideias advindas da primeira, ou também ao contrário, quando as ideias geradas pelo desdobramento de uma ação, nos sugere a ideia que deu origem a ação).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1]: WERTHEIMER, Michael - PEQUENA HISTÓRIA DA PSICOLOGIA , São Paulo: Cia Editora Nacional, 1985.
[2]: SKINNER, B.F. - SOBRE O BEHAVIORISMO , São Paulo: Cultrix, 1985.
[3]: FREUD, S. - A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALÍTICO , Edição Standard Brasileira das Obras Psicológica Completas, Vol. XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1979.
[4]: FREUD, S. – NEUROSE E PSICOSE , Edição Standart Brasileira das Obras Psicolólicas Completas, Vol. XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1979.
[5]: FROMM, E. - A CRISE DA PSICANÁLISE , Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
[6]: KÖHLER, W. - PSICOLOGIA DA GESTALT , Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
[7]: PERLS, Frederick - "YO, HAMBRE Y AGRESION" , Fundo de Cultura Economica, Cidade do México, 1975 (já traduzido em Português : "Ego Fome e Agressão" - pela Editora Summus).
[8]: PERLS, Frederick - ESCARAFUNCHANDO FRITZ -DENTRO E FORA DA LATA DE LIXO, São Paulo: Summus,1979.
[9]: PERLS, F. GOODMAN, P. e HEFFERLINE R.- GESTALT THERAPY, 3a.edição, New York: Crown, 1980.
Texto em: http://www.gestaltemfigura.com.br/gestalt-terapia

Gestalt-terapia


Gestalt-terapia

por Hugo Elidio Rodrigues
Para uma melhor compreensão do que é a "Gestalt-terapia", é importante, antes, efetuarmos uma pequena visualização do contexto histórico, no qual esta vertente da Psicologia Clínica encontrou terra fértil para crescer.
Comecemos pelo final do século passado, na Europa. Com o esforço de um conjunto de estudos que queria chamar a si mesma de "ciência", nasce o primeiro laboratório de Psicologia. Este laboratório (fundado pelo Dr. Wilhelm Wundt, em 1879 na Universidade de Leipzig) trazia uma forte influência em sua linha teórica advinda do positivismo científico, que imperava na época e que continuou imperando durante décadas posteriores (WERTHEIMER, 1985).[1]
O trabalho do Dr. Wundt continha uma grande preocupação com a quantificação, análise e previsibilidade das reações humanas. Consequentemente, a base deste trabalho era o "visível", o que era passível de observação e testes que - seguindo a orientação científica - poderiam ser repetidos sob as mesmas condições, achando-se o mesmo resultado. Deste modo, o trato com a questão da psique humana foi reduzido ao "lidar com comportamentos", ao que o ser humano exteriorizava.
Outros teóricos, como John B. Watson (que lançou em 1913 o texto "A Psicologia tal como vê um Behaviorista" - SKINNER, 1985)[2], aprimoraram os pressupostos desta Psicologia com base no comportamento, trazendo-a para a prática clínica e estruturando um sistema próprio, que ficou conhecido como "Behaviorismo".
Porém, já próximo do início do século XX, o trabalho de Freud foi aparecendo no cenário mundial, trazendo uma consistente e profunda teoria sobre a personalidade humana (a Psicanálise), partindo dos comportamentos patológicos (sua teoria estruturou-se inicialmente sobre a histeria - FREUD, 1979)[3]  e apresentando uma preocupação muito maior com os processos mentais. Ou seja, priorizando o "mundo interno".
Através do trabalho do Freud, o homem percebeu o poder de sua vontade, de seu desejo e que todo o positivismo, toda rigidez moral não seria capaz de dominar a natureza humana; já que tal natureza encontrava-se estruturalmente cindida, entre uma parte pequena e passível de controle - que era a consciência - e outra parte insondável, incontrolável e pulsional, que era o inconsciente.
Em resumo, havia então no cenário mundial do início do século XX, algumas abordagens que apresentavam tentativas de compreensão da psique humana, trazendo luz para questões fundamentais das relações intra e interpsíquicas. Porém, havia alguma coisa que faltava...
Na Psicanálise, o ser humano era visto como algo "analisável". Dividido em "partes" que viviam em conflito (consciente x inconsciente, id x superego, Eros x Tanatos), o ser humano dependia da análise destas "partes" para ser compreendido. A análise consistia em um trabalho "arqueológico", escavando o terreno superficial da personalidade do indivíduo e atingindo partes esquecidas cada vez mais remotas, longínquas (inconscientes), porém determinantes no suprimento da energia (libido) que causava a interferência na vida deste indivíduo, impedindo-o de viver satisfatoriamente (FREUD,1979).[4]
Logo, havia uma transferência de responsabilidade implícita nesta abordagem terapêutica, que saía das mãos do paciente e ia para as mãos do psicanalista, já que apenas este detinha o "conhecimento" para a interpretação dos atos e sonhos do indivíduo. Com isto, criou-se uma dependência do paciente ao psicanalista. Segundo Erick Fromm: "... o fato de ter um analista era frequentemente usado para evitar um temido, mas inevitável fato da vida: ter de tomar decisões e aceitar riscos." (FROMM, 1971 – pág. 11).[5]
No Behaviorismo, o trabalho já era mais "superficial" (entendido aqui como baseado na superfície, sobre aquilo que se vê: comportamentos) e apoiado na possibilidade de novas atitudes a serem aprendidas. A patologia consistia em um "mal aprendizado", e a cura era obtida através de um novo processo de reaprendizagem (ou recondicionamento), para suprimir da lista de comportamentos do indivíduo, aquele que era "indesejável". A existência de um mundo interior era ignorada e toda psique humana era explicável através de um jogo de forças entre estímulos e respostas, mais tarde aperfeiçoadas para conceitos como condicionamentos operantes, reforços positivos e negativos, etc.
Ressaltamos aqui que nossa intenção é, tão somente, apontar de uma maneira breve como era o contexto na qual surgiu a Psicologia da Gestalt e, mais tarde, a Gestalt-terapia. Tanto a Psicanálise como o Behaviorismo são escolas de Psicologia que merecem todo um trabalho específico para demonstrar seus pressupostos e conceitos básicos. No escopo deste trabalho, nosso objetivo foi apontar algumas das características destas escolas que originaram controvérsias e que estimularam o aparecimento de outras visões do que é o ser humano.
Em reação a estas visões, principalmente em reação ao trabalho de Wundt (KÖHLER, 1980)[6], surge na Alemanha um campo de pesquisa chamado de "Psicologia da Gestalt ", que primava pela consideração das relações entre as partes e na determinação da percepção do todo em confronto com a ideia do associacionismo (Nota 1).
A palavra alemã "Gestalt" não tem uma tradução literal para o português, mas contém um sentido de "forma" , de "um todo que se orienta para uma definição", de "estrutura organizada". Um exemplo do que a Psicologia da Gestalt tentava dizer poderia ser ilustrado com o fenômeno ilusório do movimento aparente das lâmpadas em série. Ao colocarmos várias lâmpadas, uma ao lado da outra e acendermos uma de cada vez, apagando a anterior, temos a impressão que a luz "corre" pelas lâmpadas. Ou seja, surge das "partes" (cada lâmpada) uma forma nova, que dá um outro sentido ao "todo". O artigo sobre este sentido ilusório do movimento foi publicado pelo psicólogo gestaltista Max Wertheimer em 1912. Neste artigo, Wertheimer já prioriza a ideia de percepção como um conjunto, algo que sobressai a partir da relação entre as partes como um todo, e não pela associação de um estímulo ao outro.
Para uma melhor compreensão, segue um outro exemplo clássico utilizado pelos psicólogos da Gestalt. Quando ouvimos uma sinfonia, percebemos que ela é composta por várias partes, tais como o som de cada instrumento, o ritmo e a tonalidade musical. Estas "partes" nos trazem o estímulo auditivo que nos permite reconhecer a música tocada. Porém, a soma de tais partes - a própria sinfonia - não se resume a estas partes, de modo que, mesmo quando algumas destas partes mudam, ainda temos a chance de reconhecer o "todo", a própria sinfonia. Ou seja, podemos mudar os instrumentos, podemos até acelerar ou diminuir um pouco o ritmo, podemos tocar a sinfonia em outra clave musical (tom acima ou abaixo) e, mesmo assim, a qualidade do todo nos permitirá reconhecer a sinfonia. Como? Porque, segundo as pesquisas da Psicologia da Gestalt, na verdade percebemos é a relação entre as partes que compõem o todo.
A Psicologia da Gestalt foi um campo estritamente experimental, que se ocupou em trazer questionamentos que foram contrários à visão mecanicista (causa-efeito) e à visão atomística (que visa o átomo: a menor parte ou elemento constitutivo das coisas. Na Psicologia: busca determinar se a psique é formada por pulsões, ou emoções, símbolos, condicionamentos etc). Logo, Psicologia da Gestalt e Gestalt-terapia são assuntos diferentes, com campos de atuação e preocupações diferentes.
A Gestalt-terapia se preocupa com o campo clínico, com as técnicas de trabalho e estudos que visam dar ao homem as condições necessárias para seu próprio crescimento. Enquanto que a Psicologia da Gestalt foi um campo de pesquisa que trouxe uma série de novas perspectivas para entender a maneira com a qual o homem se relaciona com o mundo.
Assim, décadas mais tarde, outros psicólogos perceberam a importância do conhecimento que a Psicologia da Gestalt trazia e juntamente com outros pressupostos filosóficos (tais como a fenomenologia , a filosofia existencial-humanista e a filosofia zen-budista), a teoria semântica de Alfred Korzybski, com a Teoria de Campo de K.Lewin, a Teoria Organísmica de Goldstein e pressupostos psicológicos (tais como a influência de Wilhelm Reich e Alexander Lowen e do Psicodrama de J.L.Moreno) erigiram um campo de conhecimento voltado especificamente para a área clínica.
O primeiro autor da Gestalt-terapia foi o então psicanalista Frederic S. Perls, que lançou o livro "Ego, hunger and aggression" em 1942, já contendo uma série de considerações que tinham o objetivo inicial de produzir uma revisão da teoria de Freud (PERLS, 1975)[7], mas que, devido a sua controvérsia com alguns fundamentos da Psicanálise, originou o desligamento de Perls do meio psicanalítico (PERLS, 1979)[8].
Não mais preso ao rígido arcabouço teórico da Psicanálise, Perls investiu na estruturação de um novo campo clínico, escolhendo o nome de "Gestalt" para este novo campo e publicando nos EUA a primeira obra eminentemente gestaltista em 1951 (PERLS, GOODMAN, HEFFERLINE, 1980)[9].
Assim, o que é então a Gestalt-terapia hoje? É uma prática psicoterapêutica que se orienta por uma visão integradora do homem, procurando vê-lo como um todo, não como um "neurótico", um "esquizofrênico" ou como um "isso" ou "aquilo". A patologia é apenas mais uma das várias partes do todo que aquele indivíduo é, e sua "doença" é encarada como a maneira mais "saudável" que encontrou para enfrentar situações insuportáveis ou conscientemente inconciliáveis.
Não significa aí que há uma negação do estado patológico, do sofrimento do paciente pelo estado em que se encontra. Somente é feito um novo enfoque, baseado na constatação que - através de tal estado - a pessoa foi capaz de sobreviver e de chegar até ali, ao ponto em que está. E, assim como houve uma necessidade para esta pessoa organizar-se desta maneira (independentemente da consciência ou inconsciência dela sobre esta organização), a Gestalt-terapia questiona se não haveria outras maneiras, outras formas de ser e viver, que possam atender mais precisamente ao momento na qual a pessoa vive - suas necessidades atuais.
Esclarecendo melhor, parte-se do pressuposto que cada indivíduo apresenta sua específica organização interna; cada indivíduo é único e inigualável, e o seu funcionamento é sua melhor tentativa de se adaptar às pressões do seu meio. Logo, se houve uma estrutura constituída para dar conta de um problema sofrido, esta estrutura teve sua necessidade, surgiu para uma função em alguma época e se hoje é tida como uma "doença" é porque se encontra desatualizada em relação ao contexto presente de vida. Com isto, da mesma maneira que houve uma organização específica para gerar o comportamento patológico, parte-se do pressuposto que estas mesmas forças são capazes de se reorganizarem (ou melhor, atualizarem-se) para se adaptarem de uma nova maneira aos requisitos de hoje.
Com isto o trabalho clínico será voltado para uma ampliação da consciência do indivíduo sobre seu próprio funcionamento, sobre como ele age ou como se bloqueia em sua tentativa para alcançar seu próprio equilíbrio. Assim, o foco terapêutico é deslocado das mãos do terapeuta (do pressuposto detentor do "conhecimento") e vai para a relação terapêutica, onde o gestalt-terapeuta trabalhará para que o indivíduo perceba a responsabilidade sobre suas escolhas e - através do inicial apoio do terapeuta - alcance dentro de seu próprio tempo e possibilidades, uma atitude mais autônoma e autossustentada.
Para isto, o enfoque do trabalho visará sempre o que o indivíduo traz de uma maneira global (o que sente, o que experimenta, o que pensa, sua postura corporal, sua respiração etc) no momento presente, ou, como se diz na Gestalt-terapia, no "aqui-agora". Considerando o indivíduo como um todo, percebe-se que no que ele "é" se insere tudo o que ele foi. Logo, não há necessidade de sair do presente e partir para um passado que distancia cliente e terapeuta do foco das incertezas emocionais vivenciadas no "aqui-agora".
A Gestalt-terapia é uma prática que requer disponibilidade para investir, disponibilidade para "ir junto", para expor-se e envolver-se num processo "humano" e não em um processo "observador-objeto".
Concluindo, não temos a pretensão de esgotar aqui uma definição da Gestalt-terapia, mas cremos ter tocado em alguns dos pontos principais desta abordagem psicoterapêutica. Ressaltamos aqui que o enfoque principal desta abordagem é a própria relação. Devido a estas particularidades, a GT é um importante instrumento que pode ser usado por todo aquele que quer dar prioridade às relações humanas, que "cuida", que "trata" e que "acompanha".
NOTA 1:
( 1 ) Associacionismo: A teoria do Associacionismo teve como um dos seus principais fundadores, o filosófo David Hume (1711/1776). Este autor nos mostra que há certos princípios que regem as conexões entre as ideias, tais como os princípios de semelhança (uma ideia sugere uma outra semelhante), contiguidade (no espaço ou tempo, de modo que ideias surgidas em um momento ou em um local, podem ser lembradas juntas) e causa e efeito (uma ideia que gera uma consequência e sugere outras ideias advindas da primeira, ou também ao contrário, quando as ideias geradas pelo desdobramento de uma ação, nos sugere a ideia que deu origem a ação).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1]: WERTHEIMER, Michael - PEQUENA HISTÓRIA DA PSICOLOGIA , São Paulo: Cia Editora Nacional, 1985.
[2]: SKINNER, B.F. - SOBRE O BEHAVIORISMO , São Paulo: Cultrix, 1985.
[3]: FREUD, S. - A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALÍTICO , Edição Standard Brasileira das Obras Psicológica Completas, Vol. XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1979.
[4]: FREUD, S. – NEUROSE E PSICOSE , Edição Standart Brasileira das Obras Psicolólicas Completas, Vol. XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1979.
[5]: FROMM, E. - A CRISE DA PSICANÁLISE , Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
[6]: KÖHLER, W. - PSICOLOGIA DA GESTALT , Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
[7]: PERLS, Frederick - "YO, HAMBRE Y AGRESION" , Fundo de Cultura Economica, Cidade do México, 1975 (já traduzido em Português : "Ego Fome e Agressão" - pela Editora Summus).
[8]: PERLS, Frederick - ESCARAFUNCHANDO FRITZ -DENTRO E FORA DA LATA DE LIXO, São Paulo: Summus,1979.
[9]: PERLS, F. GOODMAN, P. e HEFFERLINE R.- GESTALT THERAPY, 3a.edição, New York: Crown, 1980.
Texto em: http://www.gestaltemfigura.com.br/gestalt-terapia