terça-feira, 6 de setembro de 2016

Psicoterapia brave x GT

Psicoterapia breve e abordagem gestáltica

por Graça Gouvêa
Podemos remontar os antecedentes da psicoterapia breve aos primórdios da Psicanálise, quando Ferenczi propõe uma mudança no método psicanalítico, utilizando-se da técnica ativa para mobilizar o paciente através de sugestões ou interdições diretas, promovendo, assim, um certo grau de tensão que impeliria a evolução de um tratamento quando este fosse percebido como estagnado. (GILLIERÓN, 1986)[1].
Tal proposta, inicialmente aceita por Freud, é então rejeitada quando, ao publicar "Além do Princípio do Prazer", rearticula sua teoria do funcionamento psíquico, opondo pulsão de vida e pulsão de morte, onde a compulsão à repetição é mantida pela pulsão de morte, implicando no prolongamento dos tratamentos, uma vez que o conflito nascido desta oposição, a qual originaria a compulsão à repetição, não poderia ser removido através de simples sugestões.
A relação transferencial e a compulsão à repetição são os elementos mais importantes para a justificativa do prolongamento dos tratamentos psicanalíticos. A transferência funcionaria como uma atuação da lembrança e por isso impediria o recordar realmente, uma vez que implicaria, simultaneamente, em uma abertura para o inconsciente e uma resistência ao tratamento.
Já aqui podemos fazer uma comparação com a técnica psicoterápica em Gestalt-terapia, uma vez que esta não alimenta a relação transferencial e propõe uma relação terapêutica ativa e direta, onde o contato leva a revivência emocional imediata do conteúdo da recordação trazida à consciência. Fica claro que tal técnica pode viabilizar a redução no tempo do tratamento, uma vez que modifica o enquadre técnico exatamente naquilo que Freud pensa ser o motivo do tempo prolongado da análise.
Os psicanalistas Franz Alexander e Thomas French (1959) propõem a concepção de uma teoria segundo a qual não é a rememoração dos antigos acontecimentos que cura a neurose, mas sim sua revivência numa relação que forneça uma experiência corretiva (no presente). "Essa nova experiência corretiva pode ser fornecida seja pela relação transferencial, seja por novas experiências de vida ou por ambas"... Propõem: "diversos meios visando flexibilizar as rígidas coordenadas da psicanálise e organizar uma nova forma de psicoterapia analítica, muito semelhante às psicoterapias breves atuais. Insiste-se no valor do estabelecimento de um plano de tratamento, baseado em uma avaliação diagnóstico-dinâmica da personalidade do paciente e dos problemas reais que ele precisa resolver nas condições de vida existentes. Ao estabelecer tal plano de terapia, o analista deve decidir, em cada caso, se é indicado um tipo de tratamento primordialmente de apoio ou de descobrimento, ou se a tarefa terapêutica é sobretudo uma questão de modificação das condições exteriores da vida do doente" (GILLIERON, 1986)[1].
Outro psicanalista chamado Sifneos (1977), trabalhando em um hospital geral, onde foi criado um dos primeiros serviços de psicoterapia de crise dos Estados Unidos, teve oportunidade de fazer diversos atendimentos psicoterápicos de curta duração e observou resultados bastante favoráveis. Denominou seu tipo de intervenção como "Psicoterapia de curta duração, provocadora de ansiedade", e distinguiu dois tipos de psicoterapia:
  • ansiolítica ou de apoio, que visa diminuir a ansiedade, para pacientes que estão em crise e que sofram de um problema emocional de longa duração;
  • dinâmica ou provocadora de ansiedade, através da tomada de consciência para a resolução de um problema. Para esta modalidade de terapia, indica apenas os pacientes que tenham forte motivação e certo grau de solidez do ego.
Indica uma técnica que inclui a relação face a face; contato imediato focalizado no problema a ser tratado; atitude ativa de incentivo e focalização do problema. Seus resultados mostram que a eficácia dos mesmos está fortemente associada à motivação dos pacientes no início do tratamento.
Comparando diferentes modelos de psicoterapia breve de fundamentação psicanalítica, optamos por acompanhar as formulações de Hector Fiorini (GILLIERON, 1986[1]; FIORINI, 1993[2]) no que diz respeito a formulação de um eixo para o processo terapêutico, no qual podem ser reconhecidos, nos diferentes métodos, elementos comuns. Seu trabalho está na linha de autores como Alexander, French, Balint, entre outros.
Segundo Fiorini, é possível definir "os eixos do processo em terapia nos seguintes termos: produzir no paciente uma ativação de suas funções egóicas, por meio das quais se torne possível elaborar de modo focalizado a problemática inserida em uma situação vital específica, com base na orientação, no estímulo e nas realizações simbólicas do vínculo vivido numa relação de trabalho personificada com o terapeuta, que inclui a correlata ativação das funções egóicas deste último."
Ainda citando Fiorini, compreendendo o foco como "delimitação de uma totalidade concreta sintética" que contém aspectos:
  • sintomáticos -"os sintomas salientes que motivam a consulta" ou os "pontos de urgência;
  • interacionais - " o conflito interpessoal que desencadeia a crise";
  • caracteriológicos - " uma zona da problemática do paciente que admita sua delimitação em relação a outras zonas da personalidade";
  • grupais ou sociais - o conjunto dos papéis relativos ao grupo sócio-econômico-cultural, às relações de trabalho, às condições ideológicas etc.
"O modelo de foco proposto visa a responder à necessidade de trabalhar com enfoques psicológico-psicopatológicos, diagnósticos e terapêuticos coerentes, integrados em uma concepção totalizadora da experiência humana. Uma concepção a partir da qual as condições de realidade (micro e macrossocial) e os dinamismos próprios do mundo interno pessoal e endogrupal sejam abordados em sua integração interpenetrante e em seus movimentos de estruturação-variação-estruturação constantes. Se o diagnóstico não for encarado com este sentido de movimento em direção ao encontro de uma totalização concreta, o ser humano real desaparece."
Ao nosso ver, parece que podemos estabelecer agora algumas semelhanças quanto a técnica proposta para o trabalho psicoterápico nas psicoterapias breves e na Gestalt-terapia:
  • a relação de trabalho entre terapeuta e cliente é mantida com certo grau de pessoalidade, com um contato empático e maior espontaneidade, onde a posição face a face diminui os aspectos projetivos da transferência e ressalta os aspectos do vínculo terapeuta-cliente no presente;
  • a atitude diretiva do terapeuta, em ambas as técnicas, visa manter uma ação terapêutica focalizada, a partir da queixa trazida originalmente pelo cliente, e facilitar o acesso à consciência dos conteúdos do conflito a partir do óbvio emergente;
  • há uma atitude mais positiva (em relação à concepção freudiana clássica ) dentro das psicoterapias breves, em relação à capacidade adaptativa do Ego e de sua possibilidade de resolução criativa dos conflitos, onde se percebe maior autonomia em relação às estruturas do Id e do Superego. Em GT, esta mesma atitude pode ser vista quando se fala da autorregulação organísmica e da criatividade;
  • é dado um maior destaque às funções egóicas básicas ( funções de contato e de teste da realidade) e à função integradora do ego, para fazer frente às funções defensivas, caracterizando um trabalho menos focalizado na patologia e mais nos recursos de saúde e de autorregulação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1]: GILLIERÓN, E. - AS PSICOTERAPIAS BREVES ,Rio de Janeiro: Zahar, 1986.
[2]: FIORINI, H. J. - TEORIA E TÉCNICA DE PSICOTERAPIAS , Rio de Janeiro: Francisco Alves,10a. ed.,1993.

texto em: http://www.gestaltemfigura.com.br/gestalt-terapia/psicoterapia-breve-abordagem-gestaltica