segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Conceitos de experimentação, como isso caracteriza a GT como experimentação




A proposta fenomenológica da Gestalt-Terapia em retomar ao mundo da experiência sensível, fica evidenciada na frase de Perls “perca a razão, recupere os sentidos”.  Viver apenas na razão deixou o mundo doente, perdeu o sentido. E o excesso de estímulo faz com que o indivíduo se feche, como um ajustamento de proteção, para não sentir; mas não sentir, por si só é angustiante, Mônica Alvim (2015), em sua aula de especialização apresenta que na psicoterapia a experimentação pode dar sentido para a experiência. A experimentação possibilita acordar o corpo para a sensibilidade, e um corpo desperto potencializa a capacidade criadora do indivíduo.
A experimentação em intervenção terapêutica é considerada como uma proposição, uma vez que visa provocar algo que só terá vida a partir da ação do cliente e não do terapeuta.  É uma proposta que brota da situação e é apresentada, sem impor condições. É, portanto, uma improvisação (sem um a priore), que emerge da necessidade no campo, neste caso, do cliente no seting terapêutico. É uma ação vivida, experimentada: experiment+AÇÃO. Envolve o corpo, o tempo e o espaço, tem forma e é significada. Na prática, pode ser uma pergunta, um movimento corporal ou recurso artístico de domínio do terapeuta (aqui propositor).
O “como” se dá a interação entre sujeito/organismo e um determinado campo/situação, pela experiência vivenciada e o que produziu de sentido, interferem na “formação da forma” do vir-a-ser do sujeito.  Sua percepção corpórea e significação dos sentidos, bem como os ajustamentos criativos disponibilizados envolvem o “como” desta construção. Neste contexto, implica o despertar da sensibilidade do corpo para que possa ressignificar sua percepção de mundo.
Fazendo um paralelo com a arte da pintura em tela, que compreende vários elementos em sua formação, também o sujeito se compõe das diversas interações que estabelece com o meio. As pinceladas num quadro em composição, mesclam-se com as anteriores criando nova cor e forma; assim o sujeito em sua composição, frente a novas situações vivenciadas em um campo, com a sua singularidade e historicidade acessará as nuances de suas percepções, compreendendo-as com significado próprio, sua forma.
A experimentação terapêutica com pinceladas inovadoras pode proporcionar ao sujeito novas marcas em sua forma ressignificando o que estava cristalizado. Característica do ser humano, um ser em constante transformação, que interfere e sofre influência do meio em que está inserido.
Sendo assim, a experimentação requer a existência de um campo para que possa acontecer; para fazer sentido precisa ser sentida pelo cliente de forma significativa e inovadora, proporcionando um novo olhar sobre o todo. De tal modo, que os ajustamentos criativos disfuncionais possam ser quebrados, ou seja, provoque um desajustamento criativo, como destaca Monica.
Neste contexto, a experimentação tem como tarefa provocar um Desajustamento Criativo, em outras palavras, desnaturalizar a percepção, pois o adoecimento começa na fixação da forma, que vira fôrma, robotizado. Almeja, portanto, sair da racionalização do conhecido para um campo desconhecido, ainda bruto nas emoções e sentidos, tal qual a passagem da explicação (conhecido) para a experiência (novo), possibilitando ressignificar a forma. Forma aqui, não como algo rígido e racionalizado, mas que envolve o sujeito em seu inteiro em contato fluido com o meio. Mônica destaca que é preciso “viver” a experiência, a experiência que destrói, que quebra, que desnaturaliza. E quebrar esta naturalização é o trabalho do artista.
Ser no mundo, é estar, é fluir. É resgatar a capacidade de criar. É correr o risco do absurdo. A verdadeira criação é uma resposta para o mundo, numa troca entre organismo e meio, daquilo que emerge em um campo. Assim, a experimentação em Gestalt terapia é constituída por um organismo/sujeito e ambiente a partir de um campo (situação que emerge). Sendo uma necessidade que emerge sem planejamento a priore, ela é vivenciada no agora. No contexto psicoterápico, foca no que acontece no momento (no aqui e agora do seting), trabalha com uma ação que possibilite produzir um conhecimento do cliente acerca de si próprio, tal como o terapeuta descrever os movimentos corpóreos, facilitando uma awareness. A partir da situação concreta, promove o dar-se conta de algo até então desconhecido.
Acredito que no encontro entre terapeuta e cliente, a experimentação tem um aporte seguro para acontecer. O terapeuta conhecendo os ajustamentos do cliente, pode proporcionar situações para que este experimente vivenciar o sentimento no momento presente, valorizando o aqui-agora. Como instrumento terapêutico, percebo que a experimentação já vem acontecendo em meus atendimentos, mas compreendo que posso ampliar estas possibilidades.



Referencia
Material de power point disponibilizado em curso, e anotações feitas

Por Mariane Manske Oechsler em out/ 2015