segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Contrato terapêutico





Tem-se por Contrato terapêutico, como resultante do ato de um contato entre dois ou mais interessados, objetivando contemplar a necessidade de procura e oferta, seguindo alguns critérios pré-estabelecidos de comum acordo que alinham o combinado, que vem ao encontro conceitual de contrato. O contrato envolve questões pontuais sobre a sessão: horário, periodicidade, faltas e reposição, valor, pagamento, bem como identificação da demanda, delineamento da proposta terapêutica e consentimento das partes

Identificado o ajustamento criativo disfuncional do cliente, o contrato na qualidade terapêutica, serve ao terapeuta para o alinhamento do contato com o cliente, passando a ser o alicerce norteador da relação. O contrato terapêutico é considerado como parte atuante no encontro entre terapeuta e cliente, constituinte do todo deste encontro e, portanto, não restrito a formalidade organizacional. De modo que percebe o cliente com sua individualidade e participante nesta construção. Com uma escuta aprimorada da demanda do cliente e o reconhecimento da forma como este age nas relações, o terapeuta envolve o cliente na formulação conjunta do contrato, favorecendo a possibilidade de “dar-se conta”.


O contrato terapêutico é resultante da relação terapeuta, cliente e das inter-relações que ocorrem neste campo, ou seja, o que ocorre no entre não pode ser descartado, visto que faz parte do todo. Ao identificar a forma que o cliente se relaciona, como funciona e quais os ajustamentos disfuncionais que ocorrem no campo organismo/meio, o terapeuta deve formular um contrato terapêutico que contemple estas especificidades. Rosa (2011) destaca que o terapeuta pode através da comunicação do seu percebido, promover um processo de “dar-se conta”, quando convida “ o cliente a conhecer as possibilidades que se abrem ao se conscientizar da experiência” (p.47).
O suporte teórico para a compreensão das formas de ajustamentos que ocorrem no campo, com destaque para as disfuncionais como: confluência, introjeção, projeção, retroflexão e egotismo, possibilita o reconhecimento da forma interrompida do ajustamento que necessita de intervenção.
Com olhar gestáltico de considerar o todo mais do que apenas a soma das partes, no contrato terapêutico considera o todo: cliente, terapeuta e a relação entre, neste contexto o que ocorre no campo faz parte e pode ser usado no processo de investigação e posterior elaboração do contrato. Conhecer teoricamente e reconhecer o cliente dentro das suas possibilidades e interrupções, auxiliam ao terapeuta no alinhavo desta construção. É importante que o terapeuta seja congruente com seus sentimentos e disponibilidades de atendimento, porque o estabelecimento de vínculo de confiança envolve ambas as partes.  Faz-se necessário a investigação e estudo aprimorado do caso, justamente para que o terapeuta possa ter clareza quando a sua possibilidade de envolvimento. O contrato faz parte da investigação e estudo do caso, e não deve ser confundido com o processo de psicoterapia, embora possa ser revisto e remodelado diante de novas dinâmicas do cliente, pois reconhece o indivíduo como ser em constante transformação.

     A compreensão em relação ao contrato terapêutico na clínica gestáltica proporcionou amadurecimento em minha prática clínica, assim aflora um novo olhar, novo e instigante para alguns detalhes que eu não dava a importância devida. Pude perceber o quanto dos meus atendimentos sofreram e sofrem interferência de contrato não tão bem elaborados. Interessante como novas possibilidades podem surgir a partir de um olhar diferente sobre o mesmo ponto. Reconhecer que os diferentes ajustamentos implicam diretamente no modo de funcionamento e de relacionar do cliente, e que esta relação também se refere ao que ocorre entre terapeuta e cliente no momento da formulação do contrato e, portanto, demandam manejos diferenciados conforme suas especificidades.
Muita coisa que parecia solta, agora começa a achar lugar com significado. As minhas prioridades, meus objetivos de curto e longo prazo, meus anseios e minhas relações, estão presentes antes mesmo que o cliente chegue na clínica. Percebo que este todo é muito mais amplo do que imaginava, e este novo olhar evoca uma certa decepção com o que eu achava que estava correto, mas num sentido positivo, de forma a motivar a mudança, agora posso ver mais claramente o que não quero e qual a minha meta. Concomitantemente emerge o desejo de melhorar, aprimorar, sentimentos estes atrelados a sensação de possibilidades.
Na pratica, venho revendo e reformulando a forma de atender, e reconheço a necessidade diária do exercício de focalizar na ampliação de campo sem ênfase na acolhida e intervenção. Agora é possível experimentar algo diferente, um contrato mais claro e produtivo, identificar os ajustamentos criativos e elaborar a hipótese diagnóstica com mais segurança.
Sei que ainda há muito o que melhorar, mas respeito o meu tempo, tempo genuíno diante das minhas possibilidades reais.

ROSA, Luciana. CONT(R)ATO TERAPÊUTICO na clínica gestáltica. Aw@re Revista Eletronica. 2011, v. 2, n. 1, p. 44 – 49.

Por: Mariane Manske Oechsler  em maio/ 2015