segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Finalização de Processos Clínicos em Gestalt Terapia



"Quando tomamos consciência do nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes.  Só então poderemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte". (SAINT-EXUPÈRY)

Estar consciente de si e ter um sentido de vida, permite um viver em completude, onde a morte não é tida como um equívoco, mas como fechamento de um ciclo. Um dos princípios que norteia a Gestalt-terapia é exatamente a lei do Fechamento: “uma situação em aberto continua em busca de sua finalização”. Geralmente o cliente busca a psicoterapia quando algum incômodo lhe é difícil de viver, normalmente se apresenta como uma Gestalt latente, que urge um fechamento, um fechamento de boa forma. E como a vida é composta pelo ciclo de começo, meio e fim, também assim a psicoterapia deve apresentar o seu desenrolar. O começo caracterizado pela demanda do cliente; o meio como o processo terapêutico e o fim, tendo o fechamento como marco deste ciclo que se conclui.  Desta forma, percebo que o fechamento dos processos clínicos para o cliente precisa acontecer, para que a consciência do momento possa ter um significado.
Enquanto psicoterapia, o que se encerra é a relação de encontro entre cliente e terapeuta, o fechamento caracteriza uma conscientização de uma nova etapa. Como menciona Fukumitsu (2015, p.150) “(...) psicoterapia não se termina, pois é por excelência um processo contínuo de ampliação de awareness no qual, uma vez iniciado o treinamento, este poderá ser continuado”. Os processos do cliente continuam, novas necessidades surgem num constante fluxo figura e fundo que precisam ser compreendidas. É um processo contínuo de “dar-se conta”, no qual o cliente pode reconfigurar suas demandas e seguir seu caminho pelas próprias pernas, com autonomia. Pode ser considerada como uma Confirmação feita na psicoterapia, que pode ser pelo terapeuta, pelo paciente ou até mesmo por ambos. Envolve a aceitação, respeito e acreditação.
A sociedade atual não está acostumada a lidar com finalizações, fechamentos, com o dizer adeus. Em algumas situações esta incapacidade de dizer adeus “é a sua falta de disposição para experienciar a dor que sentiriam se se soltassem” (TOBIN, 1977, p. 166).  Não há um modelo único de finalizações, envolvem vários aspectos, tanto do cliente como do meio que precisam ser contemplados.  Um dos problemas de um término por abandono, ou quando o fechamento não se consolida é o que Angela apresenta no curso: “Se algo não finaliza, não pode ter algo novo”.  A necessidade do fechamento, para dar espaço de um novo adentrar.
Considerando a finalização de um processo de psicoterapia com crianças, cabe ressaltar a importância das emoções envolvidas. Aguiar (2014, p. 212) reforça esta imprevisibilidade:

O término do processo terapêutico pode se dar de tantas formas quantas forem as crianças e as famílias envolvidas. Apesar de observarmos algumas regularidades no que denominamos processo de término,  a forma como cada criança lidará com ele e a despedida são singulares e dependem de vários fatores, entre eles o nível de autossuporte, autoconhecimento e autonomia obtidos durante o processo terapêutico pela criança e pelos responsáveis, bem como as possibilidades do profissional de reconhecer, aceitar e trabalhar os elementos indicadores do término da psicoterapia.

A psicoterapia de crianças, está mais sujeita a términos não planejados, visto que esta é dependente de quem a leve, e, portanto, exige do terapeuta habilidade de lidar com estes elementos. Cabe ao terapeuta, rever sua atuação, para procurar identificar se a finalização ocorreu por uma inabilidade sua, ou foi por ação externa a psicoterapia.
Assim sendo, tanto para o cliente como para o terapeuta, a etapa da finalização do processo terapêutico enquanto acompanhamento precisa estar bem delineada. Um bom fechamento depende em muito de como foi alinhavado o contrato. Sendo assim, é possível retomar ao combinado para dar sustentação a nova etapa. Retomar os objetivos traçados em conjunto no contrato, avaliar o que foi possível alcançar, como está funcionando no momento atual. Como todo contato pressupõe crescimento, há de saber que na psicoterapia, a inter-relação cliente e terapeuta também se contempla de crescimento para ambas as partes. Como para o cliente, a palavra do terapeuta lhe é confirmadora, também para o terapeuta, neste momento de finalização, o feedback do seu cliente serve na sua construção, pela reflexão posterior. Somos seres relacionais em constante transformação, na relação entre cliente e terapeuta, durante o processo terapêutico, ocorrem trocas que possibilitam crescimento para ambas as partes. Isto significa, que também o terapeuta precisa se preparar para o momento do término, se permitir o tempo de reorganização.   
O módulo finalização de processos clínicos trouxe um novo olhar para a importância deste ciclo que desagua no fechamento, e que não se encerra em definitivo, apenas caminhando por novos horizontes, pois o cliente continua seu processo com autonomia, ter consciência de si próprio.  Olhar para a importância do fechamento, retorna a importância de um contrato bem delineado. Questões práticas e manutenção constante deste contrato, favorecem a um fechamento saudável. O combinado sobre a duração da psicoterapia pela sugestão de Fukumitsu (2015, p. 160) serve-me de grande aprendizado: “ Podemos combinar que ela durará até o momento em que fizer sentido para você”. Algo libertador e genuinamente gestáltico!

Referências:
Material do módulo de especialização em Gestalt terapia com Angela Schillings

AGUIAR, L. Gestal-terapia com crianças: teoria e prática. São Paulo: Summus, 2014.

FUKUMITSU, K. O. Término e interrupções da relação psicoterapêutica em Gestalt-terapia. In: FRAZÃO, L. M.; FUKUMITSU, K.O. (org.). A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2015.

TOBIN, S. A. Dizer adeus. In: STEVENS, J.O. (org.). Isto é gestalt. 8. ed. São Paulo: Summus, 1977.
 
Por: Mariane Manske Oechsler em fev/2016