segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Gestalt-terapia e os novos paradigmas de Campo da Contemporaneidade



Por Mariane Manske Oechsler - jan/2015

Tenho percebido em minhas ações de resistência/fuga para desenvolver esta atividade, um paralelo com a confusão que permeia a totalidade do meu ser nos últimos tempos no conflito entre o sentido e o racionalizado. Almejo que minhas palavras soltas, tal qual as sinto no meu pensar, possam em palavras escritas dar a significância do que começa a abarcar intrinsicamente. Destaco que, embora tenha levantado muita poeira remexer conceitos da Física, outrora estudadas, porém sem a compreensão atual, se fazem no “agora” um delinear clarificador de apercepções “incômodas” e vivências confusas (alinhavadas por conceitos da Física clássica, tão bem incorporada na cultura vigente).
Minha percepção de Campo ampliou após a disciplina “Gestalt-terapia e os novos paradigmas de Campo da Contemporaneidade” com Selma Ciornai, principalmente quanto a magnitude da influência organismo/meio, já compreendida pela forma gestáltica de mútua interação e transformação: “Sou transformado em meu contato com o diferente a mim e sou, também, transformador do meio”, Soler aput PHG,1951.
Compreendia a inter-relação organismo/meio numa percepção de Campo tendo o ambiente/meio restrito ao contato proximal, ou seja, dentro dos cinco sentidos básicos de percepção (tato, visão, audição, paladar e olfato). Reconhecer a amplitude de abrangência deste Contato, possibilita dar sentido a vivências outrora menosprezadas tais como sonhos, percepções, pensamentos, imagens, música. Fenômenos passiveis de compreensão sob a ótica da Ciência contemporânea alavancando possibilidades: teoria da relatividade (matéria, espaço e tempo são relativos e não absolutos; toda massa é uma forma de energia), teoria quântica (o todo determina o comportamento das partes; conexões não locais – conexões sem sinais); experimento Einstein-Podolsky-Rosen/EPR (elétrons mudam a rotação quando a de seus pares é alterada); Teoria dos campos Morfogenéticos (a transmissão de informação através do tempo e do espaço, campos mórficos sendo regiões não materiais de influência que se estendem no espaço e se prolongam no tempo); Teoria M (que postula uma espécie de membrana que conecta tudo o que existe); teoria dos Campos Akáshicos (tudo no universo está interconectado através de uma rede invisível – “banco de memória cósmico”).
Caminhando em sentido contrário de completude, e a busca incessante de conhecer para controlar, o paradigma individualista enfatiza a separatividade e o individualismo, resultando em afastamento e isolamento. A aproximação da Ciência Contemporânea pela teoria da relatividade e física quântica, traz um novo olhar sobre interdependência, oposto ao estudo isolado das partes (tão marcante em nossa cultura). Acresce a percepção da interdependência vista como processo de maturidade e crescimento, na qual a interação organismo/meio é essencial, não podendo ser compreendido um sem o outro.
Reconheço que a conexão entre “toda” a espécie de organismo com o meio (ambiente), na qual matéria e energia são aspectos da mesma realidade, e que esta comunicação/interação estende-se ao palpável fisicamente no tempo e espaço. A novidade emerge significativamente na compreensão do ser humano como matéria e energia (partícula e onda), que faz contato influenciando o meio, bem como este mesmo meio o toca. Sendo partícula, sofre a resistência de um obstáculo físico, como uma parede; mas como onda, permite ir além do campo físico; e como onda, transpassa estas barreiras. A meditação pode ser vista como uma vivência que permite o contatar com o mundo diferente da conexão local. Ainda na esfera de compreensão ampla de Campo, a teoria da Membrana que abarca todo o conhecimento vivenciado pelos organismos e permanecem acessíveis (como contato “alfa” da meditação), respalda alguns mitos e dá credibilidade para vivências (pajés, curandeiros, visionários, premonição, sonhos, telepatia) até então, cientificamente não comprovadas, ou melhor, não divulgadas.
Sendo que a experiência se dá no contato entre organismo e ambiente, o impacto desta interação no campo organismo-ambiente é indefinida, pois sofre variação diante da disponibilidade para este contato.  Ora, compreensão de ser humano como indivíduo único, mantenedor de sua essência, embora como organismo vivo, esteja em constante transformação, afere o equilíbrio entre estabilidade e mudança. Portanto, a capacidade de percepção e a significância que o sujeito/organismo dá para a experiência sofre influência do tempo/espaço. Embora signifique as vivências de forma própria, este mesmo sujeito necessita do meio (ambiente e outros sujeitos), tanto para sobrevivência como para conhecer-se como tal. Têm a necessidade de ser sentido/reconhecido pelo outro, a possibilidade de ser visto, respalda a própria existência. “Porquê da mesma maneira que se necessita do alimento se necessita do reconhecimento, tanto para sobreviver como para existir” (CIORNAI aput TODOROV).
As vivências do sujeito registram a resolução do seu contato com o meio frente a atender a demanda de uma necessidade emergida (figura), podendo ser saciada ou frustrada, que validam ou enrijecem. A frustração por si só, não é boa ou ruim, ela pode servir para alavancar no sujeito um ajustamento criativo saudável e sair de uma homeostase, tanto quanto ser impeditiva no seu contato com o meio. Um meio de constante castração ou opressão, interfere no modo que este sujeito lidará com situação adversas futuras, uma tendência de controlar o meio afim de minimizar sua dor. Se o sujeito não encontra no campo de contato suporte, necessitará buscar em si manejos de lidar com a situação. O sujeito que possui registro de vivências saudáveis poderá identificar e lidar com maior habilidade diante de situações novas ou opressoras, com maturidade e autonomia.
O paradigma individualista, prega a autossuficiência, ou seja, a negação da necessidade do outro, na qual a vergonha é considerada uma fraqueza e inadmissível, revela insegurança e necessidade de pertencer e depender do campo: sentir vergonha é reconhecer que o outro te afeta. Conceituação que perde espaço diante do reconhecimento da interdependência organismo/meio refletida acima, ou seja, da autossuficiência para a interdependência. A interdependência reforça a necessidade de “pertencer” que o sujeito almeja na interação com o meio. A vergonha aparece como sensação de ruptura no Campo, falta de suporte ao qual o impede de revelar-se (medo da crítica destrutiva, não pertencimento) e portanto, a vergonha pode sinalizar um Campo que resiste a esta interação. Neste contexto, a vergonha é um sentimento de solidão, medo de ficar sozinho. Observando que as áreas que apresento maior dificuldade, correspondem as áreas em que me sinto só. Para que ocorra mudança significativa, importa que haja mudança nas condições de suporte deste campo. “É suporte da totalidade do campo que nos energiza e torna as mudanças possíveis; e é a ausência ou limitação de novos suportes que fazem com que velhos padrões e organizações antigas do campo persistam e resistam à mudança” (CIORNAI).
A tendência de nomear o desconhecido, para assim ter a sensação de controle e domínio, também afasta a possibilidade de lidar com as incertezas, ou incontrolável, e como a Física clássica determinada a conhecer para controlar. Não é de se espantar com a resistência diante deste novo, no qual exige um desnudar-se do que até então era conhecido como única forma de compreensão, para dar espaço para outra possibilidade de ser. Percebo que quanto mais fechado na racionalização, mais difícil de inter-relacionar-se com o meio.
Fenômenos como pensar em um paciente específico enquanto a chuva me banha e em seguida este paciente faz contato telefônico e menciona o quanto a chuva lhe restaura; reforçam a conexão organismo/meio num Campo amplo. Acredito que estas percepções, checadas com o paciente, podem servir como canal de comunicação quando o caminho tradicional encontra-se obstruído, podendo servir para o crescimento enquanto Ser no mundo. Compreender que “o que” ocorre com o terapeuta durante a sessão, não necessariamente é do terapeuta, mas está no campo, e portanto, pode ser usado no processo terapêutico.
Neste contexto, após tentativa de ordenar o pensamento abstrato de forma concreta, me flagro fracionando partes para compreender o todo. De tal modo que embora me pareça não muito ordenada a escrita, no âmbito intrínseco desta chuva de informações, surge a sensação de conforto para muitas questões “não explicadas”, e agora mais motivada para apreende-las tanto no âmbito da profissão como na vida pessoal, meu inteiro.


SOLER, X. T. Da Autosuficiência à Interdependência. In: Revista de Psicopatologia do Instituto Gestalt de São Paulo. Ano 4, n.4, p.50 – 68, 2007
CIORNAI, Selma. Material didático do Curso “Gestalt-terapia e os novos paradigmas de Campo da Contemporaneidade”, Florianópolis, 2015.